Ao fim da tarde saíamos todos dos respectivos empregos. Íamos directos para um qualquer tasco. Sem passar por casa. Sem avisar ninguém.
O sítio não importava desde que nos servissem petiscos que fazíamos, sempre, questão de empurrar com imperial gelada. O vinho bom só viria anos mais tarde.
Nessa altura não havia horas, filhos, cães, bicicletas ou actividades extracurriculares. Tudo o que havia era uma expectativa de todas essas coisas.
Éramos amigos. E fomo-lo sempre. Desde o primeiro dia.
A minha mãe costumava dizer-nos que as boas massas se atraem.
A Guita sempre adorou esta expressão. Achava que nos assentava de uma forma demasiado evidente para ser desconsiderada. Mas o Pedro nunca gostou de colectividades. E sempre que a ocasião se impunha, lá vinha ele pôr travão ao uso excessivo que fazíamos da palavra “nós”.
Eu, por meu lado, sempre achei que a palavra “boas” antes de massas era demasiado forte para ser “nós”. Uma coisa é dizer-se: “as massas iguais atraem-se”, agora “boas” sempre me pareceu um bocadinho excessivo.
Talvez tivesse que ver com o nosso sentido de humor negro ou com capacidade que tínhamos de explorar mutuamente as piores versões de nós
próprios. De nos rirmos com isso e de nos zangarmos, também, muitas vezes por causa disso.
À luz de hoje, percebo que não era uma capacidade, mas antes uma necessidade. Aquele estado de coisas era catártico. Mergulhávamos conjuntamente às profundezas de cada um e chafurdávamos nos nossos piores momentos. E nesse processo, desmistificávamos o ser e relativizávamos o peso da alma.
Algumas vezes comentávamos os outros; as relações esquizofrénicas que se predispunham a ter. Nunca nos passou pela cabeça que os esquizofrénicos tínhamos sido sempre nós.
Recordo as caras intrigadas das outras pessoas ao verem-nos interagir. Exactamente como alguém que observa um elefante a caminhar em papel de seda, assim eram as expressões faciais dos nossos observadores.
Esforçavam-se, arduamente, por perceber que tipo de regras se aplicavam à nossa amizade ou como podia uma boca de “atirar ao joelho” produzir uma gargalhada do visado. Alguns mais desconcertados, perguntavam mesmo, de que nos ríamos.
O que os seus sentidos não abarcavam eram os laços invisíveis que nos uniam a todos, os anos de presença constante, de lealdade, de preocupação, de apoio, de compaixão, de choros, gritos, festas ou, simplesmente, estar.
A verdade é que, quando nos escolhemos muitos anos antes, cada um de nós autorizou a entrada dos outros no seu universo mais íntimo. E, ao fazê-lo, todos nós nos tornámos em diferentes pessoas. Melhores.
Hoje em dia não mudaria uma palavra na expressão da minha mãe. Éramos de facto “boas massas” a aguardar que os nossos centros gravitacionais se aproximassem o suficiente para, finalmente, convergirem.
E ao contrário do que alvitras Pedro, estes somos “nós”.
O sítio não importava desde que nos servissem petiscos que fazíamos, sempre, questão de empurrar com imperial gelada. O vinho bom só viria anos mais tarde.
Nessa altura não havia horas, filhos, cães, bicicletas ou actividades extracurriculares. Tudo o que havia era uma expectativa de todas essas coisas.
Éramos amigos. E fomo-lo sempre. Desde o primeiro dia.
A minha mãe costumava dizer-nos que as boas massas se atraem.
A Guita sempre adorou esta expressão. Achava que nos assentava de uma forma demasiado evidente para ser desconsiderada. Mas o Pedro nunca gostou de colectividades. E sempre que a ocasião se impunha, lá vinha ele pôr travão ao uso excessivo que fazíamos da palavra “nós”.
Eu, por meu lado, sempre achei que a palavra “boas” antes de massas era demasiado forte para ser “nós”. Uma coisa é dizer-se: “as massas iguais atraem-se”, agora “boas” sempre me pareceu um bocadinho excessivo.
Talvez tivesse que ver com o nosso sentido de humor negro ou com capacidade que tínhamos de explorar mutuamente as piores versões de nós
próprios. De nos rirmos com isso e de nos zangarmos, também, muitas vezes por causa disso.
À luz de hoje, percebo que não era uma capacidade, mas antes uma necessidade. Aquele estado de coisas era catártico. Mergulhávamos conjuntamente às profundezas de cada um e chafurdávamos nos nossos piores momentos. E nesse processo, desmistificávamos o ser e relativizávamos o peso da alma.
Algumas vezes comentávamos os outros; as relações esquizofrénicas que se predispunham a ter. Nunca nos passou pela cabeça que os esquizofrénicos tínhamos sido sempre nós.
Recordo as caras intrigadas das outras pessoas ao verem-nos interagir. Exactamente como alguém que observa um elefante a caminhar em papel de seda, assim eram as expressões faciais dos nossos observadores.
Esforçavam-se, arduamente, por perceber que tipo de regras se aplicavam à nossa amizade ou como podia uma boca de “atirar ao joelho” produzir uma gargalhada do visado. Alguns mais desconcertados, perguntavam mesmo, de que nos ríamos.
O que os seus sentidos não abarcavam eram os laços invisíveis que nos uniam a todos, os anos de presença constante, de lealdade, de preocupação, de apoio, de compaixão, de choros, gritos, festas ou, simplesmente, estar.
A verdade é que, quando nos escolhemos muitos anos antes, cada um de nós autorizou a entrada dos outros no seu universo mais íntimo. E, ao fazê-lo, todos nós nos tornámos em diferentes pessoas. Melhores.
Hoje em dia não mudaria uma palavra na expressão da minha mãe. Éramos de facto “boas massas” a aguardar que os nossos centros gravitacionais se aproximassem o suficiente para, finalmente, convergirem.
E ao contrário do que alvitras Pedro, estes somos “nós”.