quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Altruísmo

Eu: Lembras-te daquela vez que deste um pontapé no rabo de um homem que acabava de se baixar para apanhar uma caneta?

Ave Rara: Sim…

Eu: E lembras-te como depois largaste a correr e deixaste-me ali pendurada? E quando o homem se voltou só viu a minha cara incrédula a olhar para ele?

Ave Rara: Sim… estávamos na fila para entrar no autocarro. Na verdade, fiz-lhe um favor.
Eu: Claro que fizeste! Afinal, o que não falta por aí é gente altruísta a encher o traseiro alheio de biqueiradas! É pena que a nossa sociedade decida chamar-lhes arruaceiros e volta e meia mande um ou outro para a cadeia.

Ave Rara: Vês? É precisamente essa forma de altruísmo, imposto e padronizado, que me irrita na sociedade portuguesa… Porque é que a caridade tem que ser sempre materializada em dinheiro, comida/roupas e obras públicas?

Eu: … this should be fun … 

Ave rara: A sério! Deixa-me perguntar-te: se visses duas miúdas de Sagrado Coração de Maria dirigirem-se a uma rua mal frequentada, onde sabias que costuma haver muitos assaltos, alertarias as miúdas?

Eu: Hum … Não. Se são do Sagrado coração, à partida elas é que iam dar má fama à rua…

Ave Rara: LOL! Responde herege!

Eu: Se me apercebesse do perigo real, definitivamente diria algo.

Ave Rara: Voilá! E isso é também uma forma de altruísmo na sua vertente de cidadania activa!

Eu: Sim, mas continuo sem perceber como é que, eu evitar uma situação de perigo, pode ser equiparável a tu pontapeares alguém no traseiro e fugires?

Ave Rara: Altruísmo de pura cepa minha cara! O que fiz por aquele homem nunca ele me poderá pagar. Também não é disso que se trata. Como te digo, fi-lo movida apenas por esse nobre sentimento que me anima o espírito…

Eu: Vá! Deixa-te lá de tretas e explica-te.

Ave Rara: Já ouviste falar de um senhor chamado Ivan Petrovich Pavlov?

Eu: Já mas acho absolutamente extraordinário que saibas de cor o nome completo de Pavlov e o pronuncies com o melhor dos sotaques russos … surpreendente a forma como dedicas o teu tempo a assuntos tão sumamente importantes...

Ave Rara: Seria de supor que depois da referência a Pavlov já terias percebido de que forma o meu pontapé na peida do velho foi um acto altruísta... Não achas surpreendente também a conta em que te tenho?

Eu: Não… mas diz lá o que é que o Pavlov tem a ver com esta história toda!

Ave Rara: Então, Pavlov com a sua teoria dos reflexos condicionados, veio demonstrar que mediante a repetição de certos estímulos, positivos ou negativos, o ser humano a eles sujeitos ajustará o seu comportamento e passará a agir por antecipação sempre que se encontre numa situação idêntica. Ora, no caso do senhor do autocarro que deixou cair a caneta no chão e que automaticamente se baixou para a apanhar, quando lhe assentei o pé no fofo condicionei os seus comportamentos futuros. Isto é, faço-o pensar duas vezes da próxima vez que se baixar para apanhar seja o que for. Percebes? 

Eu: Sei que não estou a contribuir para esta discussão tanto quanto gostarias, mas … DO QUE É QUE ESTÁS A FALAR?

Ave Rara: A sério que ainda não atingiste? Imagina que este mesmo senhor, de hoje para amanhã, por infortúnios da vida acaba por ir parar à cadeia. Um belo dia está a tomar duche e, oops, deixa cair o sabonete…

Eu: Não, não, não e não!! Tu não vais chegar à conclusão que eu penso que tu vais chegar! 

Ave Rara: Estou só a dizer: hoje é a caneta amanhã é o sabonete… Uma pessoa que se baixa com aquela leviandade, com aquele desprendimento, notoriamente não se encontra preparada para as tribulações da vida. Ou, pelo menos, não em todas as vestes em que elas podem revelar-se. Ao dar-lhe um pontapé, estou a condicionar-lhe o comportamento e a evitar que uma eventual estadia na prisão se transforme numa experiência absolutamente marcante e infeliz. Ora, a isto chamo eu de altruísmo na sua vertente de serviço à comunidade!

Eu: Que generosa és… E onde está o altruísmo quando decides fugir a sete pés sem me dares o mínimo sinal de pré-aviso?

Ave Rara: … confesso que não pensei em tudo... Toldou-me a premência do dever cívico..

Eu: …

O meu despertador

É analógico e tem números vermelhos.

Nunca o programo para que me acorde. Não é essa a sua função. A função do meu despertador é esperar por mim. Esperar pelo momento em faço dele a primeira imagem que vejo ao abrir os olhos. E como um companheiro discreto ele aguarda pacientemente esse momento. Nunca vacila, nunca se altera, nunca desiste. 

Ultimamente sou mais consciente da sua presença. Procuro-o mais vezes, várias vezes. Todas as noites. Mantemos um diálogo silencioso e persistente mas nunca seguido. É quase existencialista,um género de fatalidade cósmica que me impõe que olhe para ele que me certifique que continua por ali a dar horas à espera de todos os meus despertares.

2:20: Viro-me de lado e arrasto uma almofada até junto de mim. Envolvo-a, vigorosamente, no meu abraço e faço repousar nela a minha perna direita. O coração bate-me exaltado na coxa como se protestasse o movimento desnecessário que acabo de lhe impor. Gradualmente, porém, qual perdedor resignado volta a aconchegar-se na sua cavidade e faz ajustar a nossa respiração aos ritmos que habitam, de noite, as casas …uma mão percorre-me fleumática as costas. Não enxergo o corpo em que se encaixa, a cara a que pertence ou os olhos que decidem os seus  movimentos. Nada dessas coisas porém, parece importar. Apenas a reconfortante familiaridade desse toque importa. Na verdade, é tudo quanto basta porque é tudo o que sempre existiu. 3:17: Lá fora milhares de gotas de chuva suicidam-se dos algerozes dos prédios. O som que provocam ao embater nos obstáculos que encontram no caminho dá-lhes um ritmo próprio, quase aritmético... a fanfarra dos bombeiros de Xabregas passa pela rua principal da feira. Estou com um grupo de pessoas demasiado familiares para não terem rosto. Há ainda um cão retriever e a minha professora de inglês do 6.º ano come um churro que tem a forma de uma fartura. Observo-a distender o seu dedo indicador e enfiá-lo no mar de chocolate que brota do interior da fartura. Faz isto várias vezes até não haver nada a não ser fartura. A sua boca e mãos estão totalmente lambuzadas de chocolate. Nessa altura, chama o cão e dá-lhe a fartura para que acabe com ela. O contentamento do canino é exteriorizado pelo abanar vigoroso da sua cauda que bate repetidamente de encontro à cabeça do baterista dos Meatloaf, que se encontra afixada no placard informativo que anuncia o próximo concerto da banda. O barulho provocado pela cauda do cão é ensurdecedor.04:49: A tempestade insiste em impor-se lá fora. Volto a fechar os olhos e tento dormir, afinal só me restam duas horas até que o mundo deixe de ser lasso novamente. O vizinho de baixo já me habituou às suas incursões nocturnas à casa de banho e o barulho interminável da sua urina quente a cair na água da retrete põe-me sempre a pensar que a bexiga dele é demasiado elástica para ser humana. A verdade, porém, é que a constância daquele jorrar é aconchegante… Um malabarista enche com um jarro vários copos com água que se encontram simetricamente espalhados em cima de uma mesa. Estou na rua Augusta com um amigo que desfila a cara de outro. Estamos de braço dado, de pé, e observamos o malabarista com moderada curiosidade. O jarro ainda contém água e os copos ainda não estão cheios mas isso não importa porque a nossa atenção acaba de se virar para as três pessoas ao nosso lado que comem pernas de frango. Comem-nas à mão e de uma forma tão sôfrega que os seus queixos exibem o aspecto daqueles que aplicam gloss de forma desmazelada. O meu amigo faz anunciar a sua vontade de comer frango e corre para o cesto dos três expectadores que neste momento não passam de bons velhos amigos, confortáveis e familiares, cujas caras pertencem a estranhos. Todos roem ossos e mascam as cartilagens, sem preocupação aparente pela estética social. 7:55: Começo a ouvir a cidade acordar, oiço o barulho de persianas que se abrem, o som fumarento dos velhos autocarros, do bater de pratos nos cafés da minha rua, das portas traseiras da carrinha do padeiro quando fecham. O mundo voltou a ser apenas um e tudo o que me resta são cinco minutos. Cinco minutos para sair da cama. Cinco minutos para fazer tudo de novo. Cinco minutos para me convencer que cinco minutos são uma eternidade. Hoje parti o meu despertador.  

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

CHAT(ANDO)

Ave Rara: Tens algum amigo que é fã do Boavista?
 
Eu: Não, mas conheço pessoas que são fãs do Olhanense…. Mais que uma até. O que é curioso, quando se pensa nisso.
 
Ave Rara: Como assim?
 
Eu: Não sei… só me parece estranho que alguém queira ser fã de um clube de futebol que, a julgar pelo nome, mais parece uma associação dedicada ao Voyeurismo.
 
Ave Rara: ahah, nem quero saber o que pensas dos fãs do Castrense…
 
Eu: Entre voyerismo e boicote ideológico venha o diabo e escolha?
 
Ave rara: LOL! … mas agora que penso nisso..  Ainda que se saiba à partida que são clubes de futebol é difícil não imaginar um relato de jogo nestes termos:
 
“O pelotão do Castrense que, desde a sua fundação, nos habituou à sua postura defensiva, tem boicotado todos os ataques do Olhanense à sua baliza, abstendo-se, porém, de tentar inserir o esférico na baliza do adversário. Tal atitude não parece, porém, favorecer o Olhanense que conta, neste momento, com apenas sete jogadores em campo…. Aparentemente os outros sete encontram-se estrategicamente espalhados pela plateia e tentam fotografar decotes, pernas e comportamentos indecorosos dos fãs… É inacreditável, mas o guarda-redes do Olhanense, acaba de abandonar a baliza, e escuda-se agora atrás de um fiscal de linha enquanto tenta sacar fotos de um casal de namorados mais ousado… No entanto, a sua iniciativa foi reprimida pelo ponta-de-lança do Castrense que destruiu a máquina fotográfica com os seus próprios pés. … O caos é geral! A multidão protesta! Aos 87 minutos deste jogo o resultado continua 0-0. E isto é futebol!
 
Eu: … já percebi porque é que nunca falamos de futebol. . .

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Ao telefone

Mãe: Estou?
Filha: Olá mãe!
Mãe: Quem fala?
Filha: É a Rosa, mãe...
Mãe: Qual Rosa?
Filha: ... A Rosa, mãe...
Mãe: Rosa, minha filhinha, como estás?
Filha: Está tudo bem mãe. Posso saber porque é que não respondes aos meus mails??
Mãe: Tenho respondido sempre minha filhinha, respondi a tudo e contei as novidades todas..
Filha: Não recebi nada...
Mãe: Mas eu respondi... Não deve ter chegado. Vais ver que quando chegares a Portugal caem todos...
Filha: ...

Ave Rara - A aceitação

Sabes que não tens, propriamente, a amiga mais saudável do mundo, quando ela te obriga a conduzir até um parquimetro fora da sua zona de residência apenas porque ouviu dizer que a máquina devolve o dinheiro depois de dar o ticket..

Apercebes-te que algo de muito errado se passa contigo quando achas que a proposta é perfeitamente razoável;

Descobres que não só a Ave Rara, ma.s também tu tens um problema com o jogo, quando chegas à máquina e percebes que à terceira moeda ela deixa de devolver o dinheiro e, ainda assim, continuas a atirar para lá moedas na esperança de recuperares o que já lá deixaste..

Fuck you Emel and your stupid Money Eater Machines!!!

Domingo à tarde

Mãe: Olha, vai dar um filme belíssimo! Rosa, já viste? O turista? Que filme extraordinário... Pai, larga lá os jogos de cartas e vê antes o filme. Um bocadinho de cultura vá!
Pai: ´tá beemm.... mas é sobre o quê?
Mãe: É sobre policias e ladrões.
Pai: Ai, então é melhor não ver senão depois não durmo bem...
Mãe: ...

Sobre encontros

Eu: Olá 
Ave rara: Vou jantar com o Sr. X hoje.  
Eu: Nice! vais beijar na boca (adorava que houvesse um smile french kissing)
Ave rara: Estou nervosa...
Eu: Porquê? já foram jantar outras vezes, e falam todos os dias... não há-de variar muito
Ave rara: Estou na net a pesquisar tópicos de conversa
Eu: ...
Eu: ahahahahahaha

Momento pseudo-demagógicó-sindical

Os trabalhos por conta de outrem são como os casinos. Não estão feitos p'ra se ganhar dinheiro.

O casino pelo menos tem o black jack, que é o único jogo em que as probabilidades de vitória são mais favoráveis ao jogador.

Por isso, quando me aventuro nos casinos, jogo sempre Black Jack.
Ass: uma prestadora de serviços que pensa que o Black Jack devia ser transversal a todos os jogos de fortuna e azar.
 
(Continuo sem ter nada a dizer a teu favor César das Neves)

Sobre religião


Ave rara: Tenho uma coisa para te contar.   
Eu: ui! Que se passa? 
Ave rara: Ontem ia na rua e deu-me a fome. Passei por uma mercearia com aqueles expositores de fruta á porta e quando dou por mim estou a tirar uma maçã. Como se fosse um buffet, nem pestanejei. Segui o meu caminho, roendo a minha maçã e a pensar que devia ter escolhido uma mais verde . . A minha educação sacro-cristã revelou-se um verdadeiro flop!   
Eu: Ai AR que exagero!! Toda a gente sabe que roubar para comer não é pecado. 
Ave rara: ...