Algures no espaço e no tempo, no Departamento de Criatividade Relacionada com a Invenção de Algo Completamente Autónomo e Original (Criacao)
- Sabes bem que ainda temos um longo caminho pela frente não sabes?
- Sim! Já sei, já sei. Mas, agora, o que está realmente a preocupar-me é o tubo de alimentação.
- Tubo de alimentação, tubo de alimentação!! Será que, por um momento podes parar de tratar a nossa obra-prima como se fosse um carburador?
- E tu, será que podes parar de me azucrinar e concentrar-te no problema que temos em mãos? Já vamos na nossa 15.º experiência, e até agora nem um vislumbrezinho de êxito. Se continuamos assim, o Todo-o-Poderoso ainda nos corta a verba. A última reunião não foi bonita, e arriscamos perder tudo aquilo para que trabalhos nos últimos 100,000,000,000 de anos.
- Estou bem conscience da nossa situação mas sinto que desta vez é diferente.
- Ai sim? E o que te faz "sentir" isso?
- Cheguei à conclusão que não podemos contar só com a variável "optimização do tubo de alimentação". Temos que pensar mais além.
- Por exemplo?
- Na própria alimentação em si. Estive a pensar e desenvolvi um conceito que tenho vindo a aprofundar nos últimos 200 anos. Chamei-lhe autonomia omnívora. Ou em inglês Nature Self service!
- Autonomia quê?
- Autonomia omnívora! Eu explico: Estamos a condenar todos os nossos projectos ao fracasso pelo simples facto de partirmos da permissa de que a alimentação é indiferente.
- E é!! Desde que escolhamos um recurso alimentar que exista em abundância, não temos de nos preocupar com mais nada. Já tinhamos chegado a essa conclusão.
- Sim! Mas o que não considerámos foi o trabalho dos dos nossos colegas do Departamento para Assuntos sobre Solos e Sinergias Solares! (DASSS!)
- O que é que isso interessa? O trabalho deles é o trabalho deles. O nosso é o nosso...
- Oh, mas aí é que tu te enganas! Tudo está interligado. Todos trabalhamos para o mesmo fim: executar o projectinho excêntrico do Todo-o-Poderoso!
- Sim, mas então, onde é que queres chegar?
- Segue o meu raciocínio: quando o DASSS desenvolveu a camada subterrânea da terra, incluíu nela um mecanismo que de auto-renovação. Uma espécie de exfoliante auto-imbutido, que permite à terra renovar-se a cada X anos. De cada vez que esse mecanismo é accionado condena à extinção todos os recursos da terra, entre os quais a vegetação...
- Que nós, até aqui, temos utilizado como fonte de alimentação para os nossos projectos!!!
- Exacto!! Até aqui isso não constituíu um obstáculo porque a última renovação deu-se antes de pôrmos as nossas criações a deambular pelo globo. Estive a falar com o Ezequiel da contabilidade e parece que segundo um relatório dos DASSS - altamente confidencial - a próxima "exfoliação" terrestre vai dar-se alguns milhões de anos depois de pormos a nossa obra prima a habitar a terra.
- Sim, já tinha ouvido falar sobre isso... tem algo que ver com a proliferação de camadas de gelo na superfície terrestre... Tem havido muito burburinho sobre isso. Até já lhe chamam em tom de brincadeira: "A idade do gelo".
- Tali qual! Então, o que eu pensei foi: qualquer fonte de alimentação que decidamos atribuir à nossa obra prima, está condenada à extinção durante idade do gelo, certo?
- Certo.
- Então e se nós dotássemos a nossa obra-prima de um mecanismo que lhe dê não só capacidade de comer tudo aquilo que a natureza tem para oferecer, mas ainda a capacidade de procurar de forma autónoma fontes de alimentação existentes na natureza?
- Quando dizes tudo, referes-te exactamente a quê?
- A TUDO!!! Vegetação, sementes do subsolo, a criaturas que habitem a terra... a eles próprios se tiver que ser para garantir a continuação da espécie! Percebes?? Autonomia Omnívora
- Mas isso é absolutamente desconcertante!!! Comerem-se uns aos outros?!? Enlouqueceste?
- Pronto, tinha que vir o puritano!! Tenta ver mais além do que aquilo que eles ingerem! O comerem-se uns aos outros é só se tiver mesmo que ser. O que está, verdadeiramente, em causa, aqui, é a sobrevivência da espécie.
- Sim, mas comerem-se uns aos outros?!?
- Eu sabia que não ias conseguir largar esse pequeno pormenor! Por isso pensei numa forma de garantir que essa funcionalidade só seria utilizada em último recurso. Assim, inventei o Sabor.
- O Sabor?
- Sim, o Sabor é um dispositivo altamente complexo que se coloca dentro do tubo de alimentação e que será responsável por informar o nervo central de quais são os alimentos cuja ingestão traz consigo um estado de bem-estar associado e quais os que transmitem a mensagem oposta. Se programarmos esse esse dispositivo de forma a interpretar o corpo humano - entre outras coisas que agora não interessa falar - como algo que traz desconforto, evitamos que a nossa obra-prima se banqueteie de si mesma.
- Como uma espécie de preconceito alimentar?
- Exactamente como um preconceito alimentar!
- Mas a parte dos preconceitos não está a cargo do Departamento de Métodos Obtusos e Regras Anti-Libertinagem (Moral)?
- Sim! E por isso é que teremos que trabalhar com eles. Já falei com o Gabriel. Está tudo tratado. Reunimos amanhã!