sábado, 21 de dezembro de 2013

Pai Natal S. A. Da influência do regime de Outsourcing na perda das tradições milenares

Era uma caixa azul com cadeado de código da Samsonite. Não faço ideia de como veio para ao meu colo por isso decidi assumir o cenário mais provável:

Foi um bando de duendes fabricantes do melhor pó de invisibilidade do mundo e especialistas na arte do fabrico de pantufas de borrego.

Os mini-verdes de orelhas compridas e barretes pendidos haviam sido contratados, em regime de outsourcing, pela Pai Natal S. A. para auxiliar o Departamento de Distribuição de Presentes & Logística de Lacinhos (DDP&LL).

Aparentemente eram bons a fazerem-se invisíveis e nutriam uma perfeita indiferença pelos seres humanos.

Claro está, estes serviçais de luxo não se contratam por “tuta-e-meia” e a Pai Natal S. A. estava a pagar o seu peso em ouro.

Dizem opiniões internas, que um facção de ajudantes do Pai Natal, encarregue da distribuição em Portugal entrou numa casa onde os esperava um menino travesso.

Como era a última casa, relaxaram no empenho negligenciado a importância dos procedimentos de invisibilidade. O menino afoito apanhou-os em flagrante, exactamente no momento em que depositavam um vale de compras Colombo no sapatinho da avozinha.

Assustados, apressaram-se a tentar dar-lhe uma explicação, enquanto lhe enchiam o sapatinho de presentes destinados à distribuição em Angola (último país na lista dos circuitos de distribuição) numa tentativa vã de lhe comprar o silêncio.

Confortavelmente instalado no maple de couro da sala, o infante ouviu o chorrilho de justificações e observou o seu sapatinho crescer em latas de salsichas e sacos de arroz. Aguardava calmamente a sua oportunidade para falar, enquanto degustava os bolos secos que os seus irmãos tinham deixado na sala com o propósito de agradar ao Pai Natal.

Quando a ocasião se lhe apresentou, aventou-lhes:  

Que raio de empresa permite que os seus colaboradores trabalhem no dia 24 de Dezembro?

Ninguém sabe o que foi dito nessa conversa, mas os resultados foram nefastos para a Pai Natal S. A., que neste momento apresenta graves problemas de caixa.

Em Dezembro de 2013 um surto de greves estoirou nos vários departamentos da Pai Natal S. A., fazendo cessar, de forma alternada e contínua, todos os departamentos chave da empresa. 
Também o representante do DDP&LL fez anunciar que “…2/3 do staff não trabalharia no 24 e 25 de Dezembro com fundamento em que os destinos de Verão são muito mais apreciados na quadra natalícia, porquanto faz frio no Pólo Norte gerando um aumento do risco de frieiras e pingo no nariz…”

Ora, foi assim que a Caixa Azul veio ter ao meu colo e não ao sapatinho, como é costume.

O facto de vir com um cadeado de código da Samsonite não chegou a constituir um obstáculo, pois abri-o facilmente com recurso a um filme no Youtube, onde um coreano se predispõe a ensinar-nos como abrir fechos de malas de viagem e cadeados Samsnonite de código sem causar dano.

Dentro da caixa vinha um impresso do tamanho de um cartão de visita que dizia simplesmente:
                                                                     
                                                   Viva Portugal!

sábado, 26 de outubro de 2013

O Cão e o Talhante. Uma introspecção para aqueles que se queixam aos que nada têm.

Um cão entra num talho. Traz na boca um talego e uma nota escrita onde pode ler-se:
 
“Exmo. Senhor,

Solicito a entrega, ao quadrúpede da raça canina que se encontra diante de si, dos seguintes produtos:

a)    8 Salsichas frescas;
b)    1kg de carne picada;
c)    500gr de entrecosto;

Agradeço a amabilidade na inclusão dos produtos dentro do talego que o animal carrega na boca. Poderá encontrar aí também o dinheiro para provisionar a despesa.  
 
Muito agradecido.
Ass: P”

Visto que era fim do dia, e que o talho estava prestes a fechar, o talhante intrigado e movido pela curiosidade decide seguir o animal.

Ao sair da loja, o cão dirige-se a uma paragem de autocarros ali próxima e põe-se à espera.

Passa um autocarro, o cão encaminha-se à porta de passageiros, espreita lá para dentro e volta para trás. Repete esta atitude por mais 3 vezes, até que se decide a entrar no 4.º autocarro.

O talhante, mais perplexo do que nunca, entra atrás do cão e senta-se num banco próximo do animal, que se encontra cerca da porta de saída com o talego pousado aos seus pés.

Na última paragem, o canino sai do autocarro com os últimos passageiros, e dirige-se a uma casa antiga com uma porta de madeira oval.

Com o focinho faz balançar a aldraba e aguarda. Um homem, dos seus sessenta anos, abre a porta ao animal e logo depois de lhe retirar o talego da boca, dá-lhe uma valente sova.

O talhante, incrédulo com tal desfecho, irrompe da escuridão e aborda o homem:
O senhor desculpe a intromissão, mas não posso deixar de perguntar. Segui o seu cão até aqui, e estou impressionado com os ensinamentos que lhe incutiu. Convenhamos que não é todos os dias que vemos um cão a fazer recados! Compreenderá V. Exa. a minha estupefacção quando, no fim de tudo isto, o vejo a aplicar um correctivo no animal…
 
O homem apanhado de surpresa, olha para o cão, como que a tentar reconhecer a que se referia o talhante e responde: 

Está a falar deste paspalho? “Isto” não serve para nada! Não passa de um preguiçoso-lambão. Acha, o senhor, normal que esta semana já é a segunda vez que se esquece da chave!?!?

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Órbitas


“Nós” não vamos correr para merecer o batido de morango que nos espera no fim dos 15km. Porque não há “nós”! Há: “Tu” vais correr! E há: “Eu” vou a andar a passo de humano lento!

Não quero ser o teu centro gravitacional de corrida. Porque é que insistes em trazer-me se nem sequer podes correr em linha recta? Correr em círculos não é uma modalidade! E pára de me olhar com esse ar de paciência e tolerância enquanto esperas retome o ritmo! Isso só me dá vontade de estugar ainda mais o passo, de me sentar na relva, de ignorar-te.

Ainda me irrita mais saber que o posso fazer.

Posso sentar-me na relva, posso baixar a cabeça e posso ignorar-te. Porque sei que não vais a lado nenhum. Nunca irás. Sei que vais continuar a correr em círculos. Jamais em linha recta.

Experimento o toque dos teus dedos zombeteiros nas laterais do meu abdómen. Nessa altura, a irritação alimenta a energia que preciso para largar em debandada atrás de ti. Corro de raiva. Tento assentar-te uma bofetada e, logo, um pontapé. Mas só chego a tempo de agredir o ar. 

Tu já lá vais a rir. Fazes estimativas às calorias que gastei com o ímpeto descontrolado. Dizes-me que preciso de dar mais 700 iguais a essa, mas que talvez seja melhor evitar prender a respiração.
 
Céus, porque me martirizas? E porque é que continuas a trazer-me?
Hoje pensei nisso.
É quem tu és.
Traçaste um percurso e incluíste-me nele. E dispões-te a correr em círculos e não em linha recta. Quem anda em linha recta sou eu. O teu movimento circular só avança em função do meu impulso rectílineo.

Repara, eu nunca vou conseguir acompanhar-te, porque não está em mim correr. Mas nunca vou deixar de me equipar, levantar a cabeça e seguir o percurso à volta do qual tu te dispuseste a circular.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Balão de pensamento

Um dia, numa conversa qualquer, alguém me disse que escrevia quando estava infeliz.

Nos tempos de faculdade, um amigo meu estudava melhor com o aspirador ligado. Segundo ele, era a homogeneidade do som que o fazia abstrair-se dos barulhos circundantes da casa e lhe permitia concentrar-se nos livros.

Diz-se que esse é o som que ouvimos quando estamos na barriga das nossas mães. Há até gente que gosta de pôr música clássica na barriga, para acalmar o bebé. Imagino que deva ser um ou outro pai mais sensibilizado para o facto de ninguém merecer passar o dia a ouvir um aspirador…

Uma das minhas irmãs gosta muito de gelados. Em pequena comia-os em pratos de sopa para evitar o suplício de se servir novamente. “Quebra o ritmo” dizia-me ela enquanto olhava com ar de luxúria para o meu prato de sopa colorido.

A nossa mãe diz que essa perdição por gelados se deve ao facto de ter passado os 9 meses de gravidez da minha irmã a comer gelados.

Para mim sempre foi difícil imaginar uma pessoa a comer gelados de manhã à noite.
Oiço esta história desde miúda e nunca tendo visto a minha mãe sentada no chão, com a boca toda lambuzada, a comer directamente da caixa, parecia-me difícil imaginar tal situação.

Mas não deixava de imaginar! Chegava mesmo a pensar na indumentária que, só podia ser largueirona para permitir à minha mãe estar mais confortável e, a um tempo, ingerir maiores quantidades de gelado. 

Conta-se que a princesa Diana comia assim nas cozinhas do Palácio de Buckingham. Mas parece que a princesa Diana não estava grávida e o cardápio dela incluía todo o tipo de alimentos. Foi a fase dela de bulímica.

O engraçado é que não me lembro a partir de que idade consegui imaginar a minha mãe a comer gelados de forma mais moderada… talvez comesse um depois das refeições, outro nas pausas laborais, quem sabe ao fim do dia ou antes do jantar…

É como ouvir uma história dos tempos de infância dos nossos pais e imaginá-la a preto e branco. Ainda hoje não consigo dissociar estas duas ideias. Se a minha tem 15 anos, então é preta e branca…

O que será que andou a fazer a minha mãe enquanto estava grávida de mim?

terça-feira, 15 de outubro de 2013

(in)Coerências

Olhos, nariz, boca, olhos, nariz, boca… e porque não bochecha? Dizem que a bochecha é a parte mais saborosa de todos os seres vivos. O Dr. Lecter, num dos filmes explica isto muito bem, enquanto come a bochecha do convidado. A que saberá a carne humana? Deve ser gorduroso, em geral. Gastronomicamente, quanto mais gorduroso mais bem cotado é. Não percebo a adoração por torresmos. Só o nome dá azia. Torresmos. Torresmos. Se repetirmos vezes suficientes uma palavra roubamos-lhe o significado. Torresmos, torresmos, torresmos, torresmos… Não percebo porquê! Talvez seja porque a repetição cria distanciamento da tarefa. É como conduzir… ou lavar os dentes. Sei lá eu se o incisivo ficou bem lavado! Só me lembro que no processo de aprendizagem fiz questão de assegurar que aquele meu incisivo ficava num brinco. Porque é que será que a expressão brinco significa brilhar e é sempre acompanhada do gesto de agarrar o lóbulo da orelha entre o polegar e o indicador? Os italianos usam esse mesmo gesto para dizer que alguém joga na outra equipa. Não me faz sentido nenhum. E dizer que uma coisa fica um brinco é do verbo brincar, ou da palavra brinco? Deve ser brinco senão agarrávamos um brinquedo e não o lóbulo da orelha… tenho que ver no Priberam… O Priberam é uma das melhores ferramentas linguísticas de todos os tempos. O que as pessoas não sabem é que há uns colaboradores mais válidos que outros. Eu vou sempre ver os cv’s deles. Se o João Rui me disser que “a primeira pessoa do plural do Pretérito Perfeito do verbo haver é houveram”, não é exactamente a mesma coisa que a mesma afirmação ser dita pelo Prof. Doutor João Rui PHD em linguísticas aplicadas ao desenvolvimento da hermenêutica e linguística portuguesa. A maior parte das pessoas limita-se a comer o que lhes dão… Tipo a Wikipedia. Wikipedia, wikipedia, wikipedia. LOL, é mesmo verdade que perde o significado.

sábado, 24 de agosto de 2013

A minha mãe

Cheira sempre a fim de tarde soalheiro misturado com rosas que nunca murcham.  

Por detrás da ingenuidade aparente com que soluciona os nossos problemas, encontra-se a manha de um prestidigitador experiente. É como uma engrenagem invisível que dá impulso às nossas vidas.

Veste o meu pai, e reserva no coração três caixas de ouro.

A da minha irmã mais velha tem um compartimento especial, com uma chave feita por medida. A medida de todos nós.

Enquanto joga cartas no computador, dá solução às nossas frustrações.

Ás de copas para dois de copas… que saudades tenho da minha Ana… três de paus para quatro de paus… esta semana aproveito que vou a Lisboa e compro as cortinas lá para a casa da Migustinha… sete de ouros… aproveito também para almoçar com a minha Rosa que anda sempre mal nutrida… sete de ouros… era bom que o Vítor viesse comigo… sete de ouros para oito de copas… assim jantávamos todos e estávamos um bocadinho com o Joaquim…

Mas nem tudo são rosas.

Quando se zanga consegue fazer-nos viajar no tempo. Regra geral, sentimos na pele o estado de espírito de Pedro Álvares Cabral ao dobrar o cabo das tormentas. Mas de vez em quando, sentimos o pavor dos chineses perante a natureza destrutiva de Godzilla.

Nessas alturas, unimos esforços na tentativa de repor a normalidade. Sentamo-la no sofá dela, proibimos o pai de fazer zapping, pomos os cães fora de casa, preparamos o almoço, arrumamos a cozinha, vamos às bombas comprar o stock de crunchies, e uma de nós oferece-se para lhe pintar as unhas dos pés…

Depois esperamos, ansiosos que ela volte a ser um fim de tarde soalheiro misturado com rosas que nunca murcham.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Hoje

Comecei por lavar os dentes respeitando o movimento orbital dos planetas.

A moção circular e isócrona transportou-me para a estratosfera. Senti o calor avassalador de um cometa que passava perto, indiferente à minha presença.

Enquanto seguia distraidamente a sua rota, imaginei o estado de espírito dos habitantes de Nova Iorque, quando o vissem embater no Empire State. Seria tão diferente daquele que sentia agora. De repente, o King Kong parecia-me um símio amistoso…

Um decidido toque no ombro trouxe-me de volta à estratosfera.

Era o Super-Homem.

Trazia, pelo braço, a Lois Lane. Não os via desde os anos 90 e fui cumprimentada por duas sombras disformes das personalidades, outrora esplendorosas, que tinham preenchido, durante tanto tempo, o meu imaginário.

A Lois ostentava um porte mais roliço e trazia consigo uma cesta cheia salgados, que ia comendo, enquanto falava desenfreadamente. Segundo ela, ir para o espaço e não levar folhados de salsicha é o mesmo que ir à praia e não levar ovos cozidos.

Tive vontade de rir, porque nessa altura o Super-Homem tentava libertar o braço ao qual se segurava Lois. Mas ela nem percebeu e continuou na sua ladainha sobre o que devia comer-se e onde.

Para pôr fim à conversa à torrente verbal de Lois, comentei a beleza natural de Júpiter e percebi o olhar agradecido de Clark.

Passei a boca por água e preparei-me para enfrentar a segunda-feira.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Das dores e dos desígnios do Grande Arquitecto do Universo

É impressionante como nunca nos lembramos do corpo até que o sentimos.

Na maior parte dos casos, a rotina é feita sem a mínima consideração pela máquina que transporta o nosso cérebro.

E ainda bem, porque, a não ser assim, estaríamos condenados a transformar-nos naquelas pessoas que ninguém ousa ser amiga na escola. Esses andam sempre aprumadinhos e já lhes dói tudo muito antes duma pessoa lhes acertar o primeiro sopapo.

Não é desses que vos quero falar. Quero falar-vos daquele tipo de pessoas que tratam o corpo com a indiferença que o Zorro nutre pela letra X.

Aquelas pessoas que, com a dose certa de persuasão, conseguimos convencer a jogar paintball em tronco nu, snifar cola UHU, experimentar-lhes no lombo a consistência de uma vardasca dos cavalos, descer uma estrada de gravilha de olhos vendados em cima de uma bicicleta sem travões, enfim toda uma panóplia de actividades cujo grau de diversão não é aparente aos olhos de todos. 

O que esses pobres de espírito não sabem é que o Grande-Arquitecto-do-Universo (é assim que eu lhe chamo nestes dias) dotou o nosso corpo de um mecanismo de auto-defesa, preparado para ser accionado quando o cérebro humano não garante de forma adequada os cuidados minímos da subsistência. (o António Variações já escreveu sobre essa temática vide "quando a cabeça não tem juízo". Saudades tuas António).

Uma vez accionado o mecanismo as alterações operadas no nosso estilo de vida são nefastas. 

O corpo passa de Servo a Capacho mais rapidamente do que uma pessoa consegue dizer: "A-sério-que-se-molhares-a-mão-em-alcóol-e-pegares-fogo-não-te-queimas-porque-o-fogo-consome-o-alcóol?".

Esse dia, traça o ponto de não retorno. As dores instalam-se, confortáveis, em todas as partes do corpo comportando-se como visitas indesejadas que vivem num lugar distante em que, para se chegar, temos que apanhar vários meios de transporte, incluíndo uma carroça puxada por uma mula.

Escrevo-vos da pior prisão para onde pode ser mandado o ser humano: a Prisão das Limitações Físicas.

(nota do autor: a partir daqui ler com o tom grave que imputam os estadistas aos discursos dirigidos à nação).

É com pesar que reconheço, hoje, que o meu mecanismo foi accionado.

Sinto-me um cérebro de 20 encarcerado num corpo de 30, situação que considero perfeitamente injusta já que nunca joguei paintball em troco nu.

Não querendo levantar falsas acusações, parece-me, no entanto, que o mecanismo do António Variações era bem mais tolerante...

Quero deixar os meus mais solidários cumprimentos a todos os prisioneiros das limitações físicas. E o voto de que alcancemos a longevidade necessária para chegarmos a Sócios Premium do Inatel.

A todos aqueles de mecanismo inerte só posso deixar uma mensagem:

Não snifem cola UHU, pois os efeitos psicotrópicos que lhe são atribuídos não passam de meras patranhas, plantadas na nossa sociedade, pelo lobbie das Indústrias das Colas Escolares. 





sexta-feira, 26 de abril de 2013

Ser nova...



A Maria pediu-me para começar esta participação especialíssima por me apresentar, vendendo-me.
Acho que quer que outros percebam o porquê de estar aqui.

O que na realidade ela queria dizer é que pretende que eu explane os meus argumentos de permuta pessoal, chamemos-lhe assim. Aquilo que dás a outra pessoa para ela te retribuir com aquilo que queres dela, seja amizade, admiração, emprego, um elogio, ódio, inteligência, mentira, engate, sexo.

Vender, ou não fossemos nós estudantes das leis, implica uma troca por dinheiro. Não é isso que queres Maria.

O que eu não percebo são esses limites das permutas pessoais. E isto é um assunto do caraças. Quantas bebidas podes exigir de um gatinho encostado ao bar em troca da tua momentânea atenção e sede sem que o vosso contrato seja convertido para compra e venda? São 3 vodkas maracujá? É que ao quarto já não é simpatia, é ser fim do mês e teres a carteira vazia, logo, é dinheiro, logo é uma compra e venda, logo tás a entrar no campo da prostituição. E se quisesses ser só amiga, ou encontrá-lo no facebook e colocá-lo na tua to do list, bastam 3 drinks. Acho até que bastam 2.

Não é isso que queres Maria.

O que queres é que eu diga o que sou: um cliché.  

Que passeio em parques ao domingo, adoro bebés, cães, frases jamba e gente básica.
Que me divirto com a burrice alheia, que me falta vergonha para esconder que gosto de reality shows. Que, como tu, adoro esplanar e tricotar casos amorosos entre conhecidos. Que acho que sei cozinhar porque os hambúrgueres me saem bem. E a quem é que não saem? É manteiga, alho e sal. Que me canso quando saio à noite, mas não me consigo ir embora mais cedo porque a revelação humana que acontece quando a lua substitui o sol é mágica e a mais pura forma de te mascarares, de mostrares tudo de ti.

Gosto de ler mas falta-me o tempo para dormir. E tu odeias que eu durma. E eu adoro dormir. E que tenho um homem. E que se lixe essa voz na vossa cabeça que recrimina o que escrevi e debita que ninguém é dono de ninguém.
uhh uhh és muita possessiva.
Não sou nada. 

As coisas que quero depois de ti

Quero escrever a direito em folhas de papel sem linhas, e observar as estrelas em dias de apagão. Mudar-me para o terceiro mundo e viver sem os luxos da metrópole. Andar de bicicleta nos fins de tarde soalheiros e ouvir Frank Sinatra nas noites em que me sinto teatral. Beber vinho da garrafa, e comer queijo sem tira-lhe a casca.

Quero dar-te mil beijos e sentir em todos eles a frescura do primeiro.

Quero falar horas a fio sobre as frivolidades práticas da vida, e discutir política de uma forma descomprometida. Como só os observadores o fazem.
 
Quero sentir borboletas no estômago - não! Andorinhas – de cada vez que te vejo chegar.

Quero cumprimentar a senhora da mercearia, o padeiro e o farmacêutico daquela maneira que permite o fiado. Quero ter um cão chamado Bruno, para ensiná-lo a ladrar aos inoportunos. Quero ter uma moeda da sorte e um carro velho com leitor de cassetes.

Quero ler todos os livros da minha lista e escolher as melhores passagens para partilhá-las contigo.

Quero ter um tabuleiro com pés para tomar os pequenos-almoços de domingo na cama. Quero partilhar esse tabuleiro contigo.