sábado, 24 de agosto de 2013

A minha mãe

Cheira sempre a fim de tarde soalheiro misturado com rosas que nunca murcham.  

Por detrás da ingenuidade aparente com que soluciona os nossos problemas, encontra-se a manha de um prestidigitador experiente. É como uma engrenagem invisível que dá impulso às nossas vidas.

Veste o meu pai, e reserva no coração três caixas de ouro.

A da minha irmã mais velha tem um compartimento especial, com uma chave feita por medida. A medida de todos nós.

Enquanto joga cartas no computador, dá solução às nossas frustrações.

Ás de copas para dois de copas… que saudades tenho da minha Ana… três de paus para quatro de paus… esta semana aproveito que vou a Lisboa e compro as cortinas lá para a casa da Migustinha… sete de ouros… aproveito também para almoçar com a minha Rosa que anda sempre mal nutrida… sete de ouros… era bom que o Vítor viesse comigo… sete de ouros para oito de copas… assim jantávamos todos e estávamos um bocadinho com o Joaquim…

Mas nem tudo são rosas.

Quando se zanga consegue fazer-nos viajar no tempo. Regra geral, sentimos na pele o estado de espírito de Pedro Álvares Cabral ao dobrar o cabo das tormentas. Mas de vez em quando, sentimos o pavor dos chineses perante a natureza destrutiva de Godzilla.

Nessas alturas, unimos esforços na tentativa de repor a normalidade. Sentamo-la no sofá dela, proibimos o pai de fazer zapping, pomos os cães fora de casa, preparamos o almoço, arrumamos a cozinha, vamos às bombas comprar o stock de crunchies, e uma de nós oferece-se para lhe pintar as unhas dos pés…

Depois esperamos, ansiosos que ela volte a ser um fim de tarde soalheiro misturado com rosas que nunca murcham.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Hoje

Comecei por lavar os dentes respeitando o movimento orbital dos planetas.

A moção circular e isócrona transportou-me para a estratosfera. Senti o calor avassalador de um cometa que passava perto, indiferente à minha presença.

Enquanto seguia distraidamente a sua rota, imaginei o estado de espírito dos habitantes de Nova Iorque, quando o vissem embater no Empire State. Seria tão diferente daquele que sentia agora. De repente, o King Kong parecia-me um símio amistoso…

Um decidido toque no ombro trouxe-me de volta à estratosfera.

Era o Super-Homem.

Trazia, pelo braço, a Lois Lane. Não os via desde os anos 90 e fui cumprimentada por duas sombras disformes das personalidades, outrora esplendorosas, que tinham preenchido, durante tanto tempo, o meu imaginário.

A Lois ostentava um porte mais roliço e trazia consigo uma cesta cheia salgados, que ia comendo, enquanto falava desenfreadamente. Segundo ela, ir para o espaço e não levar folhados de salsicha é o mesmo que ir à praia e não levar ovos cozidos.

Tive vontade de rir, porque nessa altura o Super-Homem tentava libertar o braço ao qual se segurava Lois. Mas ela nem percebeu e continuou na sua ladainha sobre o que devia comer-se e onde.

Para pôr fim à conversa à torrente verbal de Lois, comentei a beleza natural de Júpiter e percebi o olhar agradecido de Clark.

Passei a boca por água e preparei-me para enfrentar a segunda-feira.