sábado, 26 de outubro de 2013

O Cão e o Talhante. Uma introspecção para aqueles que se queixam aos que nada têm.

Um cão entra num talho. Traz na boca um talego e uma nota escrita onde pode ler-se:
 
“Exmo. Senhor,

Solicito a entrega, ao quadrúpede da raça canina que se encontra diante de si, dos seguintes produtos:

a)    8 Salsichas frescas;
b)    1kg de carne picada;
c)    500gr de entrecosto;

Agradeço a amabilidade na inclusão dos produtos dentro do talego que o animal carrega na boca. Poderá encontrar aí também o dinheiro para provisionar a despesa.  
 
Muito agradecido.
Ass: P”

Visto que era fim do dia, e que o talho estava prestes a fechar, o talhante intrigado e movido pela curiosidade decide seguir o animal.

Ao sair da loja, o cão dirige-se a uma paragem de autocarros ali próxima e põe-se à espera.

Passa um autocarro, o cão encaminha-se à porta de passageiros, espreita lá para dentro e volta para trás. Repete esta atitude por mais 3 vezes, até que se decide a entrar no 4.º autocarro.

O talhante, mais perplexo do que nunca, entra atrás do cão e senta-se num banco próximo do animal, que se encontra cerca da porta de saída com o talego pousado aos seus pés.

Na última paragem, o canino sai do autocarro com os últimos passageiros, e dirige-se a uma casa antiga com uma porta de madeira oval.

Com o focinho faz balançar a aldraba e aguarda. Um homem, dos seus sessenta anos, abre a porta ao animal e logo depois de lhe retirar o talego da boca, dá-lhe uma valente sova.

O talhante, incrédulo com tal desfecho, irrompe da escuridão e aborda o homem:
O senhor desculpe a intromissão, mas não posso deixar de perguntar. Segui o seu cão até aqui, e estou impressionado com os ensinamentos que lhe incutiu. Convenhamos que não é todos os dias que vemos um cão a fazer recados! Compreenderá V. Exa. a minha estupefacção quando, no fim de tudo isto, o vejo a aplicar um correctivo no animal…
 
O homem apanhado de surpresa, olha para o cão, como que a tentar reconhecer a que se referia o talhante e responde: 

Está a falar deste paspalho? “Isto” não serve para nada! Não passa de um preguiçoso-lambão. Acha, o senhor, normal que esta semana já é a segunda vez que se esquece da chave!?!?

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Órbitas


“Nós” não vamos correr para merecer o batido de morango que nos espera no fim dos 15km. Porque não há “nós”! Há: “Tu” vais correr! E há: “Eu” vou a andar a passo de humano lento!

Não quero ser o teu centro gravitacional de corrida. Porque é que insistes em trazer-me se nem sequer podes correr em linha recta? Correr em círculos não é uma modalidade! E pára de me olhar com esse ar de paciência e tolerância enquanto esperas retome o ritmo! Isso só me dá vontade de estugar ainda mais o passo, de me sentar na relva, de ignorar-te.

Ainda me irrita mais saber que o posso fazer.

Posso sentar-me na relva, posso baixar a cabeça e posso ignorar-te. Porque sei que não vais a lado nenhum. Nunca irás. Sei que vais continuar a correr em círculos. Jamais em linha recta.

Experimento o toque dos teus dedos zombeteiros nas laterais do meu abdómen. Nessa altura, a irritação alimenta a energia que preciso para largar em debandada atrás de ti. Corro de raiva. Tento assentar-te uma bofetada e, logo, um pontapé. Mas só chego a tempo de agredir o ar. 

Tu já lá vais a rir. Fazes estimativas às calorias que gastei com o ímpeto descontrolado. Dizes-me que preciso de dar mais 700 iguais a essa, mas que talvez seja melhor evitar prender a respiração.
 
Céus, porque me martirizas? E porque é que continuas a trazer-me?
Hoje pensei nisso.
É quem tu és.
Traçaste um percurso e incluíste-me nele. E dispões-te a correr em círculos e não em linha recta. Quem anda em linha recta sou eu. O teu movimento circular só avança em função do meu impulso rectílineo.

Repara, eu nunca vou conseguir acompanhar-te, porque não está em mim correr. Mas nunca vou deixar de me equipar, levantar a cabeça e seguir o percurso à volta do qual tu te dispuseste a circular.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Balão de pensamento

Um dia, numa conversa qualquer, alguém me disse que escrevia quando estava infeliz.

Nos tempos de faculdade, um amigo meu estudava melhor com o aspirador ligado. Segundo ele, era a homogeneidade do som que o fazia abstrair-se dos barulhos circundantes da casa e lhe permitia concentrar-se nos livros.

Diz-se que esse é o som que ouvimos quando estamos na barriga das nossas mães. Há até gente que gosta de pôr música clássica na barriga, para acalmar o bebé. Imagino que deva ser um ou outro pai mais sensibilizado para o facto de ninguém merecer passar o dia a ouvir um aspirador…

Uma das minhas irmãs gosta muito de gelados. Em pequena comia-os em pratos de sopa para evitar o suplício de se servir novamente. “Quebra o ritmo” dizia-me ela enquanto olhava com ar de luxúria para o meu prato de sopa colorido.

A nossa mãe diz que essa perdição por gelados se deve ao facto de ter passado os 9 meses de gravidez da minha irmã a comer gelados.

Para mim sempre foi difícil imaginar uma pessoa a comer gelados de manhã à noite.
Oiço esta história desde miúda e nunca tendo visto a minha mãe sentada no chão, com a boca toda lambuzada, a comer directamente da caixa, parecia-me difícil imaginar tal situação.

Mas não deixava de imaginar! Chegava mesmo a pensar na indumentária que, só podia ser largueirona para permitir à minha mãe estar mais confortável e, a um tempo, ingerir maiores quantidades de gelado. 

Conta-se que a princesa Diana comia assim nas cozinhas do Palácio de Buckingham. Mas parece que a princesa Diana não estava grávida e o cardápio dela incluía todo o tipo de alimentos. Foi a fase dela de bulímica.

O engraçado é que não me lembro a partir de que idade consegui imaginar a minha mãe a comer gelados de forma mais moderada… talvez comesse um depois das refeições, outro nas pausas laborais, quem sabe ao fim do dia ou antes do jantar…

É como ouvir uma história dos tempos de infância dos nossos pais e imaginá-la a preto e branco. Ainda hoje não consigo dissociar estas duas ideias. Se a minha tem 15 anos, então é preta e branca…

O que será que andou a fazer a minha mãe enquanto estava grávida de mim?

terça-feira, 15 de outubro de 2013

(in)Coerências

Olhos, nariz, boca, olhos, nariz, boca… e porque não bochecha? Dizem que a bochecha é a parte mais saborosa de todos os seres vivos. O Dr. Lecter, num dos filmes explica isto muito bem, enquanto come a bochecha do convidado. A que saberá a carne humana? Deve ser gorduroso, em geral. Gastronomicamente, quanto mais gorduroso mais bem cotado é. Não percebo a adoração por torresmos. Só o nome dá azia. Torresmos. Torresmos. Se repetirmos vezes suficientes uma palavra roubamos-lhe o significado. Torresmos, torresmos, torresmos, torresmos… Não percebo porquê! Talvez seja porque a repetição cria distanciamento da tarefa. É como conduzir… ou lavar os dentes. Sei lá eu se o incisivo ficou bem lavado! Só me lembro que no processo de aprendizagem fiz questão de assegurar que aquele meu incisivo ficava num brinco. Porque é que será que a expressão brinco significa brilhar e é sempre acompanhada do gesto de agarrar o lóbulo da orelha entre o polegar e o indicador? Os italianos usam esse mesmo gesto para dizer que alguém joga na outra equipa. Não me faz sentido nenhum. E dizer que uma coisa fica um brinco é do verbo brincar, ou da palavra brinco? Deve ser brinco senão agarrávamos um brinquedo e não o lóbulo da orelha… tenho que ver no Priberam… O Priberam é uma das melhores ferramentas linguísticas de todos os tempos. O que as pessoas não sabem é que há uns colaboradores mais válidos que outros. Eu vou sempre ver os cv’s deles. Se o João Rui me disser que “a primeira pessoa do plural do Pretérito Perfeito do verbo haver é houveram”, não é exactamente a mesma coisa que a mesma afirmação ser dita pelo Prof. Doutor João Rui PHD em linguísticas aplicadas ao desenvolvimento da hermenêutica e linguística portuguesa. A maior parte das pessoas limita-se a comer o que lhes dão… Tipo a Wikipedia. Wikipedia, wikipedia, wikipedia. LOL, é mesmo verdade que perde o significado.