quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Duma caneta não sai só poesia

Duma caneta não sai só poesia

Quando era pequena contavam-se muitas histórias dos tempos da revolução.

Dizia-se que, nessa altura, várias pessoas ditas “fascistas”, atravessavam a fronteira para terras de “nuestros hermanos” numa tentativa derradeira de salvarem os bens que tinham escapado às apreensões que ocorreram no país logo após o sucesso da revolução.

Numa delas, conta-se que um importante financeiro da nossa praça, ao passar a fronteira foi imediatamente rodeado por “guardas alfandegários” – ponho entre aspas porque nesses tempos, democraticamente idos e loucos, qualquer um podia desempenhar qualquer função, bastando, para tal, estar imbuído do espírito “living la vida loca”.

O magnata, a quem chamaremos João Trouillard por facilidade de narrativa, foi então sujeito a uma exaustiva revista (cujos pormenores são desconhecidos da autora) com o intuito de obviar a “sonegação ao país, de bens que de outro modo pertenceriam aos que nada tinham..” (apud camarada anónimo).

Trouillard, encontrava-se agora, pelo menos assim supunham os pacifistas do cravo, do outro lado da barricada.

No entanto, nessa tarde, tudo o que os emergentes guardas alfandegários conseguiram apreender resumiu-se a uma gravata de seda italiana e uma carteira de coro sem um único tostão no seu interior, tal apreensão justificada mais pela necessidade da demonstração de resultados do que propriamente pelo valor comercial dos objectos apreendidos.

Trouillard, trazia, ainda, na algibeira interior do seu blazer uma caneta Bic que se salvou à apreensão por a tampa se encontrar roída. (Assim se vê como o flagelo de roer a tampa de uma caneta bic afecta até as classes mais altas da população).

Finda a revista lá deixaram seguir o homem que, ajeitando os colarinhos da camisa, agora desprovida de gravata, ergueu na direcção deles a caneta bic e do alto da sua pompa e arrogância aventou: “Os senhores podem revistar-me e tentar tirar-me tudo quanto quiserem mas enquanto eu tiver na posse de uma destas, não há portas que se me fechem”.

Sempre que ouvi contar esta história, em pequena, achava que era porque o Senhor Trouillard além de ser rico também possuía dotes literários que tencionava pôr em prática acaso os rumores do pós-revolução, relativos à extinção permanente da propriedade privada, se viessem a verificar.

Mais tarde à medida que fui crescendo percebi que Trouillard se referia à sua capacidade de apor a sua assinatura, em qualquer formulário adequado para o efeito, obtendo assim crédito em qualquer parte do mundo onde a dita propriedade privada continuasse a medrar.

No meu caso, temo que a conjugação de uma caneta com a minha pessoa não tenha o “toque de Midas” de que falava o magnata. Ultimamente, nos dias que correm, sou até da opinião que o melhor será não colocar a minha assinatura em qualquer documento minimamente oficial porquanto, a mesma, só terá o efeito de me tornar mais pobre.

No entanto,  meus amigos, não me deixo abalar por tamanhas trivialidades como a minha assinatura. Pelo contrário, apazigua-me saber que me podem arrebatar tudo, excepto as coisas que trago na minha memória.

E, para essas, tal como o Senhor Trouillard basta-me uma caneta Bic, de tampa roída.


sábado, 4 de outubro de 2014

Amizade Existencialista

Eu: Bom dia! Como corre essa segunda-feira?

Ave Rara: Olá!... o costume…

Eu: O costume teu? Ou o costume meu? É que o meu costume dir-me-á que chegaste ao escritório, bebeste um café rápido e voltaste para o teu lugar. Abriste o PC directamente na caixa de correio, organizaste os emails, priorizaste a tua lista de afazeres e às onze da manhã estavas pronta para deitar mãos à obra. E, como não podia deixar de ser, no meio disso tudo ainda tiveste tempo para mandar umas bocas num qualquer chat de whatsapp (este ultimo, mais para manter aceso o sentimento de pertença do que, propriamente,por interesse no que por lá se dizia)…

Ave Rara: … Sabes? Às vezes dou por mim a questionar a nossa amizade… penso nos seus 10, maduros, anos …na minha personalidade…no teu feitio… nos nossos métodos… e nos motivos que me levam a ser amiga de uma pessoa que se dispõe a escrever 90 palavra sem, no entanto,despertar, em mim, o mínimo sentimento de orgulho. E olha que, neste caso, a solução era bastante óbvia: bastava mudar todos os verbos para a sua forma negativa. Et voilà! Facile, facile!!

Eu: OMG sua freak diabólica!!!Tu-não-te-deste-ao-trabalho-de-contar-o-número-de-palavras-que-escrevi-só-para-me-poderes-mandar-uma-boca-foleira!!!

Ave Rara: E, aparentemente, tu também não…

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Altruísmo

Eu: Lembras-te daquela vez que deste um pontapé no rabo de um homem que acabava de se baixar para apanhar uma caneta?

Ave Rara: Sim…

Eu: E lembras-te como depois largaste a correr e deixaste-me ali pendurada? E quando o homem se voltou só viu a minha cara incrédula a olhar para ele?

Ave Rara: Sim… estávamos na fila para entrar no autocarro. Na verdade, fiz-lhe um favor.
Eu: Claro que fizeste! Afinal, o que não falta por aí é gente altruísta a encher o traseiro alheio de biqueiradas! É pena que a nossa sociedade decida chamar-lhes arruaceiros e volta e meia mande um ou outro para a cadeia.

Ave Rara: Vês? É precisamente essa forma de altruísmo, imposto e padronizado, que me irrita na sociedade portuguesa… Porque é que a caridade tem que ser sempre materializada em dinheiro, comida/roupas e obras públicas?

Eu: … this should be fun … 

Ave rara: A sério! Deixa-me perguntar-te: se visses duas miúdas de Sagrado Coração de Maria dirigirem-se a uma rua mal frequentada, onde sabias que costuma haver muitos assaltos, alertarias as miúdas?

Eu: Hum … Não. Se são do Sagrado coração, à partida elas é que iam dar má fama à rua…

Ave Rara: LOL! Responde herege!

Eu: Se me apercebesse do perigo real, definitivamente diria algo.

Ave Rara: Voilá! E isso é também uma forma de altruísmo na sua vertente de cidadania activa!

Eu: Sim, mas continuo sem perceber como é que, eu evitar uma situação de perigo, pode ser equiparável a tu pontapeares alguém no traseiro e fugires?

Ave Rara: Altruísmo de pura cepa minha cara! O que fiz por aquele homem nunca ele me poderá pagar. Também não é disso que se trata. Como te digo, fi-lo movida apenas por esse nobre sentimento que me anima o espírito…

Eu: Vá! Deixa-te lá de tretas e explica-te.

Ave Rara: Já ouviste falar de um senhor chamado Ivan Petrovich Pavlov?

Eu: Já mas acho absolutamente extraordinário que saibas de cor o nome completo de Pavlov e o pronuncies com o melhor dos sotaques russos … surpreendente a forma como dedicas o teu tempo a assuntos tão sumamente importantes...

Ave Rara: Seria de supor que depois da referência a Pavlov já terias percebido de que forma o meu pontapé na peida do velho foi um acto altruísta... Não achas surpreendente também a conta em que te tenho?

Eu: Não… mas diz lá o que é que o Pavlov tem a ver com esta história toda!

Ave Rara: Então, Pavlov com a sua teoria dos reflexos condicionados, veio demonstrar que mediante a repetição de certos estímulos, positivos ou negativos, o ser humano a eles sujeitos ajustará o seu comportamento e passará a agir por antecipação sempre que se encontre numa situação idêntica. Ora, no caso do senhor do autocarro que deixou cair a caneta no chão e que automaticamente se baixou para a apanhar, quando lhe assentei o pé no fofo condicionei os seus comportamentos futuros. Isto é, faço-o pensar duas vezes da próxima vez que se baixar para apanhar seja o que for. Percebes? 

Eu: Sei que não estou a contribuir para esta discussão tanto quanto gostarias, mas … DO QUE É QUE ESTÁS A FALAR?

Ave Rara: A sério que ainda não atingiste? Imagina que este mesmo senhor, de hoje para amanhã, por infortúnios da vida acaba por ir parar à cadeia. Um belo dia está a tomar duche e, oops, deixa cair o sabonete…

Eu: Não, não, não e não!! Tu não vais chegar à conclusão que eu penso que tu vais chegar! 

Ave Rara: Estou só a dizer: hoje é a caneta amanhã é o sabonete… Uma pessoa que se baixa com aquela leviandade, com aquele desprendimento, notoriamente não se encontra preparada para as tribulações da vida. Ou, pelo menos, não em todas as vestes em que elas podem revelar-se. Ao dar-lhe um pontapé, estou a condicionar-lhe o comportamento e a evitar que uma eventual estadia na prisão se transforme numa experiência absolutamente marcante e infeliz. Ora, a isto chamo eu de altruísmo na sua vertente de serviço à comunidade!

Eu: Que generosa és… E onde está o altruísmo quando decides fugir a sete pés sem me dares o mínimo sinal de pré-aviso?

Ave Rara: … confesso que não pensei em tudo... Toldou-me a premência do dever cívico..

Eu: …

O meu despertador

É analógico e tem números vermelhos.

Nunca o programo para que me acorde. Não é essa a sua função. A função do meu despertador é esperar por mim. Esperar pelo momento em faço dele a primeira imagem que vejo ao abrir os olhos. E como um companheiro discreto ele aguarda pacientemente esse momento. Nunca vacila, nunca se altera, nunca desiste. 

Ultimamente sou mais consciente da sua presença. Procuro-o mais vezes, várias vezes. Todas as noites. Mantemos um diálogo silencioso e persistente mas nunca seguido. É quase existencialista,um género de fatalidade cósmica que me impõe que olhe para ele que me certifique que continua por ali a dar horas à espera de todos os meus despertares.

2:20: Viro-me de lado e arrasto uma almofada até junto de mim. Envolvo-a, vigorosamente, no meu abraço e faço repousar nela a minha perna direita. O coração bate-me exaltado na coxa como se protestasse o movimento desnecessário que acabo de lhe impor. Gradualmente, porém, qual perdedor resignado volta a aconchegar-se na sua cavidade e faz ajustar a nossa respiração aos ritmos que habitam, de noite, as casas …uma mão percorre-me fleumática as costas. Não enxergo o corpo em que se encaixa, a cara a que pertence ou os olhos que decidem os seus  movimentos. Nada dessas coisas porém, parece importar. Apenas a reconfortante familiaridade desse toque importa. Na verdade, é tudo quanto basta porque é tudo o que sempre existiu. 3:17: Lá fora milhares de gotas de chuva suicidam-se dos algerozes dos prédios. O som que provocam ao embater nos obstáculos que encontram no caminho dá-lhes um ritmo próprio, quase aritmético... a fanfarra dos bombeiros de Xabregas passa pela rua principal da feira. Estou com um grupo de pessoas demasiado familiares para não terem rosto. Há ainda um cão retriever e a minha professora de inglês do 6.º ano come um churro que tem a forma de uma fartura. Observo-a distender o seu dedo indicador e enfiá-lo no mar de chocolate que brota do interior da fartura. Faz isto várias vezes até não haver nada a não ser fartura. A sua boca e mãos estão totalmente lambuzadas de chocolate. Nessa altura, chama o cão e dá-lhe a fartura para que acabe com ela. O contentamento do canino é exteriorizado pelo abanar vigoroso da sua cauda que bate repetidamente de encontro à cabeça do baterista dos Meatloaf, que se encontra afixada no placard informativo que anuncia o próximo concerto da banda. O barulho provocado pela cauda do cão é ensurdecedor.04:49: A tempestade insiste em impor-se lá fora. Volto a fechar os olhos e tento dormir, afinal só me restam duas horas até que o mundo deixe de ser lasso novamente. O vizinho de baixo já me habituou às suas incursões nocturnas à casa de banho e o barulho interminável da sua urina quente a cair na água da retrete põe-me sempre a pensar que a bexiga dele é demasiado elástica para ser humana. A verdade, porém, é que a constância daquele jorrar é aconchegante… Um malabarista enche com um jarro vários copos com água que se encontram simetricamente espalhados em cima de uma mesa. Estou na rua Augusta com um amigo que desfila a cara de outro. Estamos de braço dado, de pé, e observamos o malabarista com moderada curiosidade. O jarro ainda contém água e os copos ainda não estão cheios mas isso não importa porque a nossa atenção acaba de se virar para as três pessoas ao nosso lado que comem pernas de frango. Comem-nas à mão e de uma forma tão sôfrega que os seus queixos exibem o aspecto daqueles que aplicam gloss de forma desmazelada. O meu amigo faz anunciar a sua vontade de comer frango e corre para o cesto dos três expectadores que neste momento não passam de bons velhos amigos, confortáveis e familiares, cujas caras pertencem a estranhos. Todos roem ossos e mascam as cartilagens, sem preocupação aparente pela estética social. 7:55: Começo a ouvir a cidade acordar, oiço o barulho de persianas que se abrem, o som fumarento dos velhos autocarros, do bater de pratos nos cafés da minha rua, das portas traseiras da carrinha do padeiro quando fecham. O mundo voltou a ser apenas um e tudo o que me resta são cinco minutos. Cinco minutos para sair da cama. Cinco minutos para fazer tudo de novo. Cinco minutos para me convencer que cinco minutos são uma eternidade. Hoje parti o meu despertador.  

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

CHAT(ANDO)

Ave Rara: Tens algum amigo que é fã do Boavista?
 
Eu: Não, mas conheço pessoas que são fãs do Olhanense…. Mais que uma até. O que é curioso, quando se pensa nisso.
 
Ave Rara: Como assim?
 
Eu: Não sei… só me parece estranho que alguém queira ser fã de um clube de futebol que, a julgar pelo nome, mais parece uma associação dedicada ao Voyeurismo.
 
Ave Rara: ahah, nem quero saber o que pensas dos fãs do Castrense…
 
Eu: Entre voyerismo e boicote ideológico venha o diabo e escolha?
 
Ave rara: LOL! … mas agora que penso nisso..  Ainda que se saiba à partida que são clubes de futebol é difícil não imaginar um relato de jogo nestes termos:
 
“O pelotão do Castrense que, desde a sua fundação, nos habituou à sua postura defensiva, tem boicotado todos os ataques do Olhanense à sua baliza, abstendo-se, porém, de tentar inserir o esférico na baliza do adversário. Tal atitude não parece, porém, favorecer o Olhanense que conta, neste momento, com apenas sete jogadores em campo…. Aparentemente os outros sete encontram-se estrategicamente espalhados pela plateia e tentam fotografar decotes, pernas e comportamentos indecorosos dos fãs… É inacreditável, mas o guarda-redes do Olhanense, acaba de abandonar a baliza, e escuda-se agora atrás de um fiscal de linha enquanto tenta sacar fotos de um casal de namorados mais ousado… No entanto, a sua iniciativa foi reprimida pelo ponta-de-lança do Castrense que destruiu a máquina fotográfica com os seus próprios pés. … O caos é geral! A multidão protesta! Aos 87 minutos deste jogo o resultado continua 0-0. E isto é futebol!
 
Eu: … já percebi porque é que nunca falamos de futebol. . .

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Ao telefone

Mãe: Estou?
Filha: Olá mãe!
Mãe: Quem fala?
Filha: É a Rosa, mãe...
Mãe: Qual Rosa?
Filha: ... A Rosa, mãe...
Mãe: Rosa, minha filhinha, como estás?
Filha: Está tudo bem mãe. Posso saber porque é que não respondes aos meus mails??
Mãe: Tenho respondido sempre minha filhinha, respondi a tudo e contei as novidades todas..
Filha: Não recebi nada...
Mãe: Mas eu respondi... Não deve ter chegado. Vais ver que quando chegares a Portugal caem todos...
Filha: ...

Ave Rara - A aceitação

Sabes que não tens, propriamente, a amiga mais saudável do mundo, quando ela te obriga a conduzir até um parquimetro fora da sua zona de residência apenas porque ouviu dizer que a máquina devolve o dinheiro depois de dar o ticket..

Apercebes-te que algo de muito errado se passa contigo quando achas que a proposta é perfeitamente razoável;

Descobres que não só a Ave Rara, ma.s também tu tens um problema com o jogo, quando chegas à máquina e percebes que à terceira moeda ela deixa de devolver o dinheiro e, ainda assim, continuas a atirar para lá moedas na esperança de recuperares o que já lá deixaste..

Fuck you Emel and your stupid Money Eater Machines!!!