sábado, 4 de outubro de 2014

Amizade Existencialista

Eu: Bom dia! Como corre essa segunda-feira?

Ave Rara: Olá!... o costume…

Eu: O costume teu? Ou o costume meu? É que o meu costume dir-me-á que chegaste ao escritório, bebeste um café rápido e voltaste para o teu lugar. Abriste o PC directamente na caixa de correio, organizaste os emails, priorizaste a tua lista de afazeres e às onze da manhã estavas pronta para deitar mãos à obra. E, como não podia deixar de ser, no meio disso tudo ainda tiveste tempo para mandar umas bocas num qualquer chat de whatsapp (este ultimo, mais para manter aceso o sentimento de pertença do que, propriamente,por interesse no que por lá se dizia)…

Ave Rara: … Sabes? Às vezes dou por mim a questionar a nossa amizade… penso nos seus 10, maduros, anos …na minha personalidade…no teu feitio… nos nossos métodos… e nos motivos que me levam a ser amiga de uma pessoa que se dispõe a escrever 90 palavra sem, no entanto,despertar, em mim, o mínimo sentimento de orgulho. E olha que, neste caso, a solução era bastante óbvia: bastava mudar todos os verbos para a sua forma negativa. Et voilà! Facile, facile!!

Eu: OMG sua freak diabólica!!!Tu-não-te-deste-ao-trabalho-de-contar-o-número-de-palavras-que-escrevi-só-para-me-poderes-mandar-uma-boca-foleira!!!

Ave Rara: E, aparentemente, tu também não…

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Altruísmo

Eu: Lembras-te daquela vez que deste um pontapé no rabo de um homem que acabava de se baixar para apanhar uma caneta?

Ave Rara: Sim…

Eu: E lembras-te como depois largaste a correr e deixaste-me ali pendurada? E quando o homem se voltou só viu a minha cara incrédula a olhar para ele?

Ave Rara: Sim… estávamos na fila para entrar no autocarro. Na verdade, fiz-lhe um favor.
Eu: Claro que fizeste! Afinal, o que não falta por aí é gente altruísta a encher o traseiro alheio de biqueiradas! É pena que a nossa sociedade decida chamar-lhes arruaceiros e volta e meia mande um ou outro para a cadeia.

Ave Rara: Vês? É precisamente essa forma de altruísmo, imposto e padronizado, que me irrita na sociedade portuguesa… Porque é que a caridade tem que ser sempre materializada em dinheiro, comida/roupas e obras públicas?

Eu: … this should be fun … 

Ave rara: A sério! Deixa-me perguntar-te: se visses duas miúdas de Sagrado Coração de Maria dirigirem-se a uma rua mal frequentada, onde sabias que costuma haver muitos assaltos, alertarias as miúdas?

Eu: Hum … Não. Se são do Sagrado coração, à partida elas é que iam dar má fama à rua…

Ave Rara: LOL! Responde herege!

Eu: Se me apercebesse do perigo real, definitivamente diria algo.

Ave Rara: Voilá! E isso é também uma forma de altruísmo na sua vertente de cidadania activa!

Eu: Sim, mas continuo sem perceber como é que, eu evitar uma situação de perigo, pode ser equiparável a tu pontapeares alguém no traseiro e fugires?

Ave Rara: Altruísmo de pura cepa minha cara! O que fiz por aquele homem nunca ele me poderá pagar. Também não é disso que se trata. Como te digo, fi-lo movida apenas por esse nobre sentimento que me anima o espírito…

Eu: Vá! Deixa-te lá de tretas e explica-te.

Ave Rara: Já ouviste falar de um senhor chamado Ivan Petrovich Pavlov?

Eu: Já mas acho absolutamente extraordinário que saibas de cor o nome completo de Pavlov e o pronuncies com o melhor dos sotaques russos … surpreendente a forma como dedicas o teu tempo a assuntos tão sumamente importantes...

Ave Rara: Seria de supor que depois da referência a Pavlov já terias percebido de que forma o meu pontapé na peida do velho foi um acto altruísta... Não achas surpreendente também a conta em que te tenho?

Eu: Não… mas diz lá o que é que o Pavlov tem a ver com esta história toda!

Ave Rara: Então, Pavlov com a sua teoria dos reflexos condicionados, veio demonstrar que mediante a repetição de certos estímulos, positivos ou negativos, o ser humano a eles sujeitos ajustará o seu comportamento e passará a agir por antecipação sempre que se encontre numa situação idêntica. Ora, no caso do senhor do autocarro que deixou cair a caneta no chão e que automaticamente se baixou para a apanhar, quando lhe assentei o pé no fofo condicionei os seus comportamentos futuros. Isto é, faço-o pensar duas vezes da próxima vez que se baixar para apanhar seja o que for. Percebes? 

Eu: Sei que não estou a contribuir para esta discussão tanto quanto gostarias, mas … DO QUE É QUE ESTÁS A FALAR?

Ave Rara: A sério que ainda não atingiste? Imagina que este mesmo senhor, de hoje para amanhã, por infortúnios da vida acaba por ir parar à cadeia. Um belo dia está a tomar duche e, oops, deixa cair o sabonete…

Eu: Não, não, não e não!! Tu não vais chegar à conclusão que eu penso que tu vais chegar! 

Ave Rara: Estou só a dizer: hoje é a caneta amanhã é o sabonete… Uma pessoa que se baixa com aquela leviandade, com aquele desprendimento, notoriamente não se encontra preparada para as tribulações da vida. Ou, pelo menos, não em todas as vestes em que elas podem revelar-se. Ao dar-lhe um pontapé, estou a condicionar-lhe o comportamento e a evitar que uma eventual estadia na prisão se transforme numa experiência absolutamente marcante e infeliz. Ora, a isto chamo eu de altruísmo na sua vertente de serviço à comunidade!

Eu: Que generosa és… E onde está o altruísmo quando decides fugir a sete pés sem me dares o mínimo sinal de pré-aviso?

Ave Rara: … confesso que não pensei em tudo... Toldou-me a premência do dever cívico..

Eu: …

O meu despertador

É analógico e tem números vermelhos.

Nunca o programo para que me acorde. Não é essa a sua função. A função do meu despertador é esperar por mim. Esperar pelo momento em faço dele a primeira imagem que vejo ao abrir os olhos. E como um companheiro discreto ele aguarda pacientemente esse momento. Nunca vacila, nunca se altera, nunca desiste. 

Ultimamente sou mais consciente da sua presença. Procuro-o mais vezes, várias vezes. Todas as noites. Mantemos um diálogo silencioso e persistente mas nunca seguido. É quase existencialista,um género de fatalidade cósmica que me impõe que olhe para ele que me certifique que continua por ali a dar horas à espera de todos os meus despertares.

2:20: Viro-me de lado e arrasto uma almofada até junto de mim. Envolvo-a, vigorosamente, no meu abraço e faço repousar nela a minha perna direita. O coração bate-me exaltado na coxa como se protestasse o movimento desnecessário que acabo de lhe impor. Gradualmente, porém, qual perdedor resignado volta a aconchegar-se na sua cavidade e faz ajustar a nossa respiração aos ritmos que habitam, de noite, as casas …uma mão percorre-me fleumática as costas. Não enxergo o corpo em que se encaixa, a cara a que pertence ou os olhos que decidem os seus  movimentos. Nada dessas coisas porém, parece importar. Apenas a reconfortante familiaridade desse toque importa. Na verdade, é tudo quanto basta porque é tudo o que sempre existiu. 3:17: Lá fora milhares de gotas de chuva suicidam-se dos algerozes dos prédios. O som que provocam ao embater nos obstáculos que encontram no caminho dá-lhes um ritmo próprio, quase aritmético... a fanfarra dos bombeiros de Xabregas passa pela rua principal da feira. Estou com um grupo de pessoas demasiado familiares para não terem rosto. Há ainda um cão retriever e a minha professora de inglês do 6.º ano come um churro que tem a forma de uma fartura. Observo-a distender o seu dedo indicador e enfiá-lo no mar de chocolate que brota do interior da fartura. Faz isto várias vezes até não haver nada a não ser fartura. A sua boca e mãos estão totalmente lambuzadas de chocolate. Nessa altura, chama o cão e dá-lhe a fartura para que acabe com ela. O contentamento do canino é exteriorizado pelo abanar vigoroso da sua cauda que bate repetidamente de encontro à cabeça do baterista dos Meatloaf, que se encontra afixada no placard informativo que anuncia o próximo concerto da banda. O barulho provocado pela cauda do cão é ensurdecedor.04:49: A tempestade insiste em impor-se lá fora. Volto a fechar os olhos e tento dormir, afinal só me restam duas horas até que o mundo deixe de ser lasso novamente. O vizinho de baixo já me habituou às suas incursões nocturnas à casa de banho e o barulho interminável da sua urina quente a cair na água da retrete põe-me sempre a pensar que a bexiga dele é demasiado elástica para ser humana. A verdade, porém, é que a constância daquele jorrar é aconchegante… Um malabarista enche com um jarro vários copos com água que se encontram simetricamente espalhados em cima de uma mesa. Estou na rua Augusta com um amigo que desfila a cara de outro. Estamos de braço dado, de pé, e observamos o malabarista com moderada curiosidade. O jarro ainda contém água e os copos ainda não estão cheios mas isso não importa porque a nossa atenção acaba de se virar para as três pessoas ao nosso lado que comem pernas de frango. Comem-nas à mão e de uma forma tão sôfrega que os seus queixos exibem o aspecto daqueles que aplicam gloss de forma desmazelada. O meu amigo faz anunciar a sua vontade de comer frango e corre para o cesto dos três expectadores que neste momento não passam de bons velhos amigos, confortáveis e familiares, cujas caras pertencem a estranhos. Todos roem ossos e mascam as cartilagens, sem preocupação aparente pela estética social. 7:55: Começo a ouvir a cidade acordar, oiço o barulho de persianas que se abrem, o som fumarento dos velhos autocarros, do bater de pratos nos cafés da minha rua, das portas traseiras da carrinha do padeiro quando fecham. O mundo voltou a ser apenas um e tudo o que me resta são cinco minutos. Cinco minutos para sair da cama. Cinco minutos para fazer tudo de novo. Cinco minutos para me convencer que cinco minutos são uma eternidade. Hoje parti o meu despertador.  

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

CHAT(ANDO)

Ave Rara: Tens algum amigo que é fã do Boavista?
 
Eu: Não, mas conheço pessoas que são fãs do Olhanense…. Mais que uma até. O que é curioso, quando se pensa nisso.
 
Ave Rara: Como assim?
 
Eu: Não sei… só me parece estranho que alguém queira ser fã de um clube de futebol que, a julgar pelo nome, mais parece uma associação dedicada ao Voyeurismo.
 
Ave Rara: ahah, nem quero saber o que pensas dos fãs do Castrense…
 
Eu: Entre voyerismo e boicote ideológico venha o diabo e escolha?
 
Ave rara: LOL! … mas agora que penso nisso..  Ainda que se saiba à partida que são clubes de futebol é difícil não imaginar um relato de jogo nestes termos:
 
“O pelotão do Castrense que, desde a sua fundação, nos habituou à sua postura defensiva, tem boicotado todos os ataques do Olhanense à sua baliza, abstendo-se, porém, de tentar inserir o esférico na baliza do adversário. Tal atitude não parece, porém, favorecer o Olhanense que conta, neste momento, com apenas sete jogadores em campo…. Aparentemente os outros sete encontram-se estrategicamente espalhados pela plateia e tentam fotografar decotes, pernas e comportamentos indecorosos dos fãs… É inacreditável, mas o guarda-redes do Olhanense, acaba de abandonar a baliza, e escuda-se agora atrás de um fiscal de linha enquanto tenta sacar fotos de um casal de namorados mais ousado… No entanto, a sua iniciativa foi reprimida pelo ponta-de-lança do Castrense que destruiu a máquina fotográfica com os seus próprios pés. … O caos é geral! A multidão protesta! Aos 87 minutos deste jogo o resultado continua 0-0. E isto é futebol!
 
Eu: … já percebi porque é que nunca falamos de futebol. . .

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Ao telefone

Mãe: Estou?
Filha: Olá mãe!
Mãe: Quem fala?
Filha: É a Rosa, mãe...
Mãe: Qual Rosa?
Filha: ... A Rosa, mãe...
Mãe: Rosa, minha filhinha, como estás?
Filha: Está tudo bem mãe. Posso saber porque é que não respondes aos meus mails??
Mãe: Tenho respondido sempre minha filhinha, respondi a tudo e contei as novidades todas..
Filha: Não recebi nada...
Mãe: Mas eu respondi... Não deve ter chegado. Vais ver que quando chegares a Portugal caem todos...
Filha: ...

Ave Rara - A aceitação

Sabes que não tens, propriamente, a amiga mais saudável do mundo, quando ela te obriga a conduzir até um parquimetro fora da sua zona de residência apenas porque ouviu dizer que a máquina devolve o dinheiro depois de dar o ticket..

Apercebes-te que algo de muito errado se passa contigo quando achas que a proposta é perfeitamente razoável;

Descobres que não só a Ave Rara, ma.s também tu tens um problema com o jogo, quando chegas à máquina e percebes que à terceira moeda ela deixa de devolver o dinheiro e, ainda assim, continuas a atirar para lá moedas na esperança de recuperares o que já lá deixaste..

Fuck you Emel and your stupid Money Eater Machines!!!

Domingo à tarde

Mãe: Olha, vai dar um filme belíssimo! Rosa, já viste? O turista? Que filme extraordinário... Pai, larga lá os jogos de cartas e vê antes o filme. Um bocadinho de cultura vá!
Pai: ´tá beemm.... mas é sobre o quê?
Mãe: É sobre policias e ladrões.
Pai: Ai, então é melhor não ver senão depois não durmo bem...
Mãe: ...

Sobre encontros

Eu: Olá 
Ave rara: Vou jantar com o Sr. X hoje.  
Eu: Nice! vais beijar na boca (adorava que houvesse um smile french kissing)
Ave rara: Estou nervosa...
Eu: Porquê? já foram jantar outras vezes, e falam todos os dias... não há-de variar muito
Ave rara: Estou na net a pesquisar tópicos de conversa
Eu: ...
Eu: ahahahahahaha

Momento pseudo-demagógicó-sindical

Os trabalhos por conta de outrem são como os casinos. Não estão feitos p'ra se ganhar dinheiro.

O casino pelo menos tem o black jack, que é o único jogo em que as probabilidades de vitória são mais favoráveis ao jogador.

Por isso, quando me aventuro nos casinos, jogo sempre Black Jack.
Ass: uma prestadora de serviços que pensa que o Black Jack devia ser transversal a todos os jogos de fortuna e azar.
 
(Continuo sem ter nada a dizer a teu favor César das Neves)

Sobre religião


Ave rara: Tenho uma coisa para te contar.   
Eu: ui! Que se passa? 
Ave rara: Ontem ia na rua e deu-me a fome. Passei por uma mercearia com aqueles expositores de fruta á porta e quando dou por mim estou a tirar uma maçã. Como se fosse um buffet, nem pestanejei. Segui o meu caminho, roendo a minha maçã e a pensar que devia ter escolhido uma mais verde . . A minha educação sacro-cristã revelou-se um verdadeiro flop!   
Eu: Ai AR que exagero!! Toda a gente sabe que roubar para comer não é pecado. 
Ave rara: ...

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Um dia vou contar isto

Ao fim da tarde saíamos todos dos respectivos empregos. Íamos directos para um qualquer tasco. Sem passar por casa. Sem avisar ninguém.



O sítio não importava desde que nos servissem petiscos que fazíamos, sempre, questão de empurrar com imperial gelada. O vinho bom só viria anos mais tarde.


Nessa altura não havia horas, filhos, cães, bicicletas ou actividades extracurriculares. Tudo o que havia era uma expectativa de todas essas coisas. 


Éramos amigos. E fomo-lo sempre. Desde o primeiro dia.


A minha mãe costumava dizer-nos que as boas massas se atraem.


A Guita sempre adorou esta expressão. Achava que nos assentava de uma forma demasiado evidente para ser desconsiderada. Mas o Pedro nunca gostou de colectividades. E sempre que a ocasião se impunha, lá vinha ele pôr travão ao uso excessivo que fazíamos da palavra “nós”.


Eu, por meu lado, sempre achei que a palavra “boas” antes de massas era demasiado forte para ser “nós”. Uma coisa é dizer-se: “as massas iguais atraem-se”, agora “boas” sempre me pareceu um bocadinho excessivo.



Talvez tivesse que ver com o nosso sentido de humor negro ou com capacidade que tínhamos de explorar mutuamente as piores versões de nós

próprios. De nos rirmos com isso e de nos zangarmos, também, muitas vezes por causa disso.


À luz de hoje, percebo que não era uma capacidade, mas antes uma necessidade. Aquele estado de coisas era catártico. Mergulhávamos   conjuntamente às profundezas de cada um e chafurdávamos nos nossos piores momentos. E nesse processo, desmistificávamos o ser e relativizávamos o peso da alma.


Algumas vezes comentávamos os outros; as relações esquizofrénicas que se predispunham a ter. Nunca nos passou pela cabeça que os esquizofrénicos tínhamos sido sempre nós.


Recordo as caras intrigadas das outras pessoas ao verem-nos interagir. Exactamente como alguém que observa um elefante a caminhar em papel de seda, assim eram as expressões faciais dos nossos observadores.


Esforçavam-se, arduamente, por perceber que tipo de regras se aplicavam à nossa amizade ou como podia uma boca de “atirar ao joelho” produzir uma gargalhada do visado. Alguns mais desconcertados, perguntavam mesmo, de que nos ríamos.


O que os seus sentidos não abarcavam eram os laços invisíveis que nos uniam a todos, os anos de presença constante, de lealdade, de preocupação, de apoio, de compaixão, de choros, gritos, festas ou, simplesmente, estar.


A verdade é que, quando nos escolhemos muitos anos antes, cada um de nós autorizou a entrada dos outros no seu universo mais íntimo. E, ao fazê-lo, todos nós nos tornámos em diferentes pessoas. Melhores.


Hoje em dia não mudaria uma palavra na expressão da minha mãe. Éramos de facto “boas massas” a aguardar que os nossos centros gravitacionais se aproximassem o suficiente para, finalmente, convergirem.

E ao contrário do que alvitras Pedro, estes somos “nós”.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Nunca é refluxo

Fui ter com a minha amiga M. Estava em casa com um ar abatido. Perguntei-lhe o que tinha, e porque me olhava assim. Disse-me ter uma sensação estranha no âmago. Esse âmago onde se aninha a alma quando não vislumbramos saída.

Perguntei-lhe se tinha comido algo mais condimentado, disse-lhe que provavelmente o que sentia era refluxo, que os cigarros que andava a fumar também não estavam a ajudá-la, que por algum motivo eram considerados ilegais…

A M olhou para mim e retribui-me um sorriso indiferenciado. Percebi que se estivéssemos a falar num chat, teria recebido um smile daqueles que se fazem com o comando dois-pontos-fecha-parênteses. Nunca me teria dado um daqueles de doispontosD. Esses mostram os dentes, e ela estava a querer esconder-me a alma. 

Ao observar M percebi que teria que falar com ela sobre sentimentos e debater assuntos que não se resolvem com um Kompensan. Não pude deixar de sentir uma certa pena, porque nessa semana, tinha descoberto uma farmácia ao lado de minha casa que vendia uns comprimidos, alternativos ao Kompensan, a muito bem preço.

Os amigos têm este dom de exigirem de nós soluções criativas. Se tudo se resolvesse com um Kompensan eu não teria tentado abrir uma gasolineira.

sexta-feira, 21 de março de 2014

A essência do Alentejano

"Está um tempo cabanero"

É expressão que só oiço no seio da minha famíia. 

Significa que está tempo de se estar por casa. Na companhia dos livros e de bebidas quentes e fumegantes. 

Suponho que seja uma palavra Alentejana, mas cá para mim é uma palavra de família. 
(Tal e qual como a expressão "cá para mim"... consigo ouvir a minha mãe e os meus tios a dizerem-na enquanto escrevo).

Se este texto fosse lido por um não-Alentejano, alto e bom som, tudo o que íamos ouvir na frase de abertura seria; "Está um tempo cabaneiro".

Pois, tá mal!!! 

Esta palavra lê-se sem "i" e com acento circunflexo no "e" (ainda que não se ponha lá o dito acento).

Portanto, àqueles a quem os cérebros lhes impõem o "i", ficam a saber que desvirtuam a palavra, retirando-lhe a essência. 

E no processo, traumatizam o Alentejano que a ouvir. Ou vários, conforme a audiência. 

Porque dizer-se que "está um tempo cabaneiro" é exactamente o mesmo que chamar "caseiro" ao casal encarregue de cuidar do monte. 

E atentem como escolhi dizer "monte" e não "quinta" ou "herdade no alentejo". 

Não é casual. É o que permite distinguir as raízes da propriedade, ou a família do dinheiro. 

Aqueles que têm montes chamam aos "caseiros" Tóno Manel e Maria. A expressão "caseiros" é apanágio dos proprietários com dinheiro. Das gentes desapegadas da terra. 

Também o caminho para o monte, não é uma "estrada de terra batida". 

No Alentejo chamamos-lhes "estrada de campo". 

E ao contrário daquilo que estão a pensar, a expressão não signifca "estrada que não foi sujeita a macadamização". 

Significa antes, "estrada que serve para nos lixar os carros todos, especialmente em anos de inverno rigorosos!". 

E a expressão "carros", neste contexto, deve ser entendida como englobando, exclusivamente, pick-up's e jeeps,

Ver um Alentejano a conduzir numa estrada de campo, é imaginar um citadino a conduzir o seu Ferraris numa "estradas de terra batida" toda esburacada. 

O fundamento por detrás desta bizarria, assenta no facto dos carros serem instrumentos de trabalho e não automóveis Todo-o-Terreno, como costumam ser encarados pelas pessoas da cidade. 

E ai daquele que ouse engatar uma mudança acima da 3.ª. Aí, o choque é total e vem seguido da expressão "Atão o mê amigo nã é de cá, pô não?"

Assim, respeitem-se os regionalismos, as tradições e o tempo cabanero. (sem "i") 

Hoje fico por casa, com uma bebida fumegante e um livro. 

Boa noite!

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Um casal (a)típico

14 de Fevereiro, 19:30 horas, casa de Campo de Ourique. 

Ana e Jaime estão no quarto.Preparam-se para ir jantar fora e comemorar o Dia de S. Valentim. Ana remexe uma gaveta à procura da camisola azul-marinho que tinha reservado especialmente para a ocasião. Jaime calcorreia a divisão, impaciente, à espera que Ana se despache. 

Jaime: Querida já estás vestida?
 
De costas voltadas para Jaime, Ana interrompe a sua busca e, cerrando os olhos, suspira profundamente. Jaime olha para o relógio mais uma vez. Derrotado, atira-se para cima da cama, e liga a televisão. Ana continua, frenética a revolver o closet enquanto vai falando sozinha.

Ana: Mas onde é que aquela mulher enfiou a minha camisola? Seria de pensar que uma ordem simples como Passe-me-a-camisola-e-arrume-a-no-sítio-das-camisolas-fininhas seria fácil de executar…  mas não! É demasiado complicado para aquela cabeça de vento. Juro - eu juuuroooo!! - que qualquer dia a ponho a andar. Caramba, 10 anos a trabalhar cá em casa e não consegue fazer uma coisa bem feita!! Qual é a dificuldade de passar uma camisola e arrumá-la no sítio!?!! 
 
Jaime: Vá lá querida! Tens mesmo que levar essa camisola? O que é que importa? Para mim ficas bem de qualquer maneira… se não tivesses opção…Mas ainda a semana passada passaste a tarde toda nas compras com a Sofia…
 
Ana: Jaime, sabes perfeitamente que a Sofia e eu fomos comprar roupa para o casamento da Matilde e do Diogo.. não comprei nada para mim…
 
Jaime olha para Ana perplexo.
 
Jaime: ?!? mas o meu cartão desmagnetizou com tantas vezes que foi passado..
 
Ana: Jaime…
 
Jaime: Ok, ok! Vou lá a baixo fazer uma sandwich, queres uma?
 
Ana: A sério Jaime!? Parece-te que quero uma sandwich?? Olha bem para mim meu menino! A minha cara é a de uma pessoa a quem lhe apetece uma sandwich??? Arghhhh, desaparece daqui e deixa-me sossegada!!

                                                                                                                               

                                                     
20:15, Jaime sob as escadas com uma sandwich na mão. Ana está dentro do closet em cima de um escadote a revolver arrumos de roupa. De boca cheia, Jaime solta um:
 
Jaime: Então querida já estás vestida?
 
Ana desce o escadote cheia de uma calma indiciadora de raiva latente. Lentamente vira-se do escadote para Jaime.
 
Ana: Não querido! Não estou vestida! Facto que, de resto, tu terias percebido se tivesses - e agora estou só a atirar para o ar! - olhado para mim antes de começar a perguntar essas la palissadas que tanto gostas!!!
 
Jaime volta-se para enfrentar Ana enquanto continua a ruminar a sandwich.
 
Jaime: Mas já aqui estás há uma hora Ana. De quanto tempo mais é que precisas?
 
Ana: Olha Jaime, já que me fizeste descer do escadote, vou perder o meu tempo contigo. Começo por dar-te dar um exemplo. - Sim, porque vocês homens só percebem quando falamos com exemplos e desenhos ou gráficos!! - Eu, Ana, olho para ti e percebo, pelas calças e a camisa que decidiste vestir, que tu também não estás vestido… a partir daí todo um cruzamento de informações se processa no meu cérebro. Olho para a camisa e percebo que só um cego autista é que poderia achar que uma camisa caqui ficava bem com umas calças amarelas mostarda. Então o meu cérebro comunica-me que a pergunta que eu tenho que te fazer não é : Estás vestido? Porque ele já reconheceu que estás vestido, só não reconhece a estética inerente… Percebes isto?? Quando eu decido verbalizar o que quer que seja, o meu cérebro já me deu todas as informações que eu necessito para dizer exactamente aquilo que tem que ser dito. E a única pergunta que me vem neste momento à cabeça é: Onde é que tu pensas que vais assim vestido? Isso e: A sério que achaste que alho era o molho para pôr na sandwich no dia de S. Valentim?
 
Jaime: Mandamos vir indiano?
 
Ana: …

Ponto de situação


1 - Sabes que não tens, propriamente, os amigos mais saudáveis do mundo, quando um deles te obriga a conduzir até um parquimetro fora da sua zona de residência apenas porque ouviu dizer que a máquina devolve o dinheiro depois de dar o ticket..

2 - Apercebes-te que algo de muito errado se passa contigo quando achas que a proposta é perfeitamente razoável;

3 - Descobres que os teus amigos e tu têm um problema com o jogo, quando chegas à máquina e percebes que à terceira moeda ela deixa de devolver o dinherio e, ainda assim, continuas a atirar para lá moedas na esperança de recuperares o que já lá deixaste...

Fuck you Emel and your stupid Money Eater Machines!!!

Ode à sexta-feira

Estou tão cansada
alguém ao meu lado teve uma quebra de tensão
e eu fiquei cheia de inveja dessa pessoa
que pode ir para casa.
Só me apetece deitar a cabeça
num travesseiro fofinho e de penas,
cobrir-me com um lençol de linho
e um edredon,
também ele de penas
deixar-me invadir pelo cheiro a lavanda dos meus lençóis
enrolar-me em posição fetal
ou outra
e dormir um sono
sem sonhos
sem sobressaltos
com duração nunca inferior a 12 horas
Quero acordar no fim,
sem remelas
com as costas revigoradas e
preparada para fazer
absolutamente nada.