quinta-feira, 17 de maio de 2012

Tecnicismos metafisícos



Algures no espaço e no tempo, no Departamento de Criatividade Relacionada com a Invenção de Algo Completamente Autónomo e Original (Criacao)

 - Sabes bem que ainda temos um longo caminho pela frente não sabes? 

 - Sim! Já sei, já sei. Mas, agora, o que está realmente a preocupar-me é o tubo de alimentação. 

 - Tubo de alimentação, tubo de alimentação!! Será que, por um momento podes parar de tratar a nossa obra-prima como se fosse um carburador? 

 - E tu, será que podes parar de me azucrinar  e concentrar-te no problema que temos em mãos? Já vamos na nossa 15.º experiência, e até agora nem um vislumbrezinho de êxito. Se continuamos assim, o Todo-o-Poderoso ainda nos corta a verba. A última reunião não foi bonita, e arriscamos perder tudo aquilo para que trabalhos nos últimos 100,000,000,000 de anos. 

 - Estou bem conscience da nossa situação mas sinto que desta vez é diferente. 

 - Ai sim? E o que te faz "sentir" isso?

 - Cheguei à conclusão que não podemos contar só com a variável "optimização do tubo de alimentação". Temos que pensar mais além. 

 - Por exemplo? 

 - Na própria alimentação em si. Estive a pensar e desenvolvi um conceito que tenho vindo a aprofundar nos últimos 200 anos. Chamei-lhe autonomia omnívora. Ou em inglês Nature Self service! 

 - Autonomia quê?

 - Autonomia omnívora! Eu explico: Estamos a condenar todos os nossos projectos ao fracasso pelo simples facto de partirmos da permissa de que a alimentação é indiferente. 

 - E é!! Desde que escolhamos um recurso alimentar que exista em abundância, não temos de nos preocupar com mais nada. Já tinhamos chegado a essa conclusão. 

 - Sim! Mas o que não considerámos foi o trabalho dos dos nossos colegas do Departamento para Assuntos sobre Solos e Sinergias Solares! (DASSS!)

 - O que é que isso interessa? O trabalho deles é o trabalho deles. O nosso é o nosso... 

 - Oh, mas aí é que tu te enganas! Tudo está interligado. Todos trabalhamos para o mesmo fim: executar o projectinho excêntrico do Todo-o-Poderoso! 

 - Sim, mas então, onde é que queres chegar?

 - Segue o meu raciocínio: quando o DASSS desenvolveu a camada subterrânea da terra, incluíu nela um mecanismo que de auto-renovação. Uma espécie de exfoliante auto-imbutido, que permite à terra renovar-se a cada X anos. De cada vez que esse mecanismo é accionado condena à extinção todos os recursos da terra, entre os quais a vegetação...

 - Que nós, até aqui, temos utilizado como fonte de alimentação para os nossos projectos!!!

 - Exacto!! Até aqui isso não constituíu um obstáculo porque a última renovação deu-se antes de pôrmos as nossas criações a deambular pelo globo. Estive a falar com o Ezequiel da contabilidade e parece que segundo um relatório dos DASSS - altamente confidencial - a próxima "exfoliação" terrestre vai dar-se alguns milhões de anos depois de pormos a nossa obra prima a habitar a terra. 

 - Sim, já tinha ouvido falar sobre isso... tem algo que ver com a proliferação de camadas de gelo na superfície terrestre... Tem havido muito burburinho sobre isso. Até já lhe chamam em tom de brincadeira: "A idade do gelo". 

 - Tali qual! Então, o que eu pensei foi: qualquer fonte de alimentação que decidamos atribuir à nossa obra prima, está condenada à extinção durante idade do gelo, certo?

 - Certo. 

 - Então e se nós dotássemos a nossa obra-prima de um mecanismo que lhe dê não só capacidade de comer tudo aquilo que a natureza tem para oferecer, mas ainda a capacidade de procurar de forma autónoma fontes de alimentação existentes na natureza? 

 - Quando dizes tudo, referes-te exactamente a quê?

 - A TUDO!!! Vegetação, sementes do subsolo, a criaturas que habitem a terra... a eles próprios se tiver que ser para garantir a continuação da espécie! Percebes?? Autonomia Omnívora

 - Mas isso é absolutamente desconcertante!!! Comerem-se uns aos outros?!? Enlouqueceste? 

 - Pronto, tinha que vir o puritano!! Tenta ver mais além do que aquilo que eles ingerem! O comerem-se uns aos outros é só se tiver mesmo que ser. O que está, verdadeiramente, em causa, aqui, é a sobrevivência da espécie. 

 - Sim, mas comerem-se uns aos outros?!?

 - Eu sabia que não ias conseguir largar esse pequeno pormenor! Por isso pensei numa forma de garantir que essa funcionalidade só seria utilizada em último recurso. Assim, inventei o Sabor.

 - O Sabor?

 - Sim, o Sabor é um dispositivo altamente complexo que se coloca dentro do tubo de alimentação e que será responsável por informar o nervo central de quais são os alimentos cuja ingestão traz consigo um estado de bem-estar associado e quais os que transmitem a mensagem oposta. Se programarmos esse esse dispositivo de forma a interpretar o corpo humano - entre outras coisas que agora não interessa falar - como algo que traz desconforto, evitamos que a nossa obra-prima se banqueteie de si mesma.

 - Como uma espécie de preconceito alimentar? 

 - Exactamente como um preconceito alimentar! 

 - Mas a parte dos preconceitos não está a cargo do Departamento de Métodos Obtusos e Regras Anti-Libertinagem (Moral)?

 - Sim! E por isso é que teremos que trabalhar com eles. Já falei com o Gabriel. Está tudo tratado. Reunimos amanhã!


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