É analógico e tem números vermelhos.
Nunca o programo para que me acorde. Não é essa a sua função. A função do meu despertador é esperar por mim. Esperar pelo momento em faço dele a primeira imagem que vejo ao abrir os olhos. E como um companheiro discreto ele aguarda pacientemente esse momento. Nunca vacila, nunca se altera, nunca desiste.
Ultimamente sou mais consciente da sua presença. Procuro-o mais vezes, várias vezes. Todas as noites. Mantemos um diálogo silencioso e persistente mas nunca seguido. É quase existencialista,um género de fatalidade cósmica que me impõe que olhe para ele que me certifique que continua por ali a dar horas à espera de todos os meus despertares.
2:20: Viro-me de lado e arrasto uma almofada até junto de mim. Envolvo-a, vigorosamente, no meu abraço e faço repousar nela a minha perna direita. O coração bate-me exaltado na coxa como se protestasse o movimento desnecessário que acabo de lhe impor. Gradualmente, porém, qual perdedor resignado volta a aconchegar-se na sua cavidade e faz ajustar a nossa respiração aos ritmos que habitam, de noite, as casas …uma mão percorre-me fleumática as costas. Não enxergo o corpo em que se encaixa, a cara a que pertence ou os olhos que decidem os seus movimentos. Nada dessas coisas porém, parece importar. Apenas a reconfortante familiaridade desse toque importa. Na verdade, é tudo quanto basta porque é tudo o que sempre existiu. 3:17: Lá fora milhares de gotas de chuva suicidam-se dos algerozes dos prédios. O som que provocam ao embater nos obstáculos que encontram no caminho dá-lhes um ritmo próprio, quase aritmético... a fanfarra dos bombeiros de Xabregas passa pela rua principal da feira. Estou com um grupo de pessoas demasiado familiares para não terem rosto. Há ainda um cão retriever e a minha professora de inglês do 6.º ano come um churro que tem a forma de uma fartura. Observo-a distender o seu dedo indicador e enfiá-lo no mar de chocolate que brota do interior da fartura. Faz isto várias vezes até não haver nada a não ser fartura. A sua boca e mãos estão totalmente lambuzadas de chocolate. Nessa altura, chama o cão e dá-lhe a fartura para que acabe com ela. O contentamento do canino é exteriorizado pelo abanar vigoroso da sua cauda que bate repetidamente de encontro à cabeça do baterista dos Meatloaf, que se encontra afixada no placard informativo que anuncia o próximo concerto da banda. O barulho provocado pela cauda do cão é ensurdecedor.04:49: A tempestade insiste em impor-se lá fora. Volto a fechar os olhos e tento dormir, afinal só me restam duas horas até que o mundo deixe de ser lasso novamente. O vizinho de baixo já me habituou às suas incursões nocturnas à casa de banho e o barulho interminável da sua urina quente a cair na água da retrete põe-me sempre a pensar que a bexiga dele é demasiado elástica para ser humana. A verdade, porém, é que a constância daquele jorrar é aconchegante… Um malabarista enche com um jarro vários copos com água que se encontram simetricamente espalhados em cima de uma mesa. Estou na rua Augusta com um amigo que desfila a cara de outro. Estamos de braço dado, de pé, e observamos o malabarista com moderada curiosidade. O jarro ainda contém água e os copos ainda não estão cheios mas isso não importa porque a nossa atenção acaba de se virar para as três pessoas ao nosso lado que comem pernas de frango. Comem-nas à mão e de uma forma tão sôfrega que os seus queixos exibem o aspecto daqueles que aplicam gloss de forma desmazelada. O meu amigo faz anunciar a sua vontade de comer frango e corre para o cesto dos três expectadores que neste momento não passam de bons velhos amigos, confortáveis e familiares, cujas caras pertencem a estranhos. Todos roem ossos e mascam as cartilagens, sem preocupação aparente pela estética social. 7:55: Começo a ouvir a cidade acordar, oiço o barulho de persianas que se abrem, o som fumarento dos velhos autocarros, do bater de pratos nos cafés da minha rua, das portas traseiras da carrinha do padeiro quando fecham. O mundo voltou a ser apenas um e tudo o que me resta são cinco minutos. Cinco minutos para sair da cama. Cinco minutos para fazer tudo de novo. Cinco minutos para me convencer que cinco minutos são uma eternidade. Hoje parti o meu despertador.
Nunca o programo para que me acorde. Não é essa a sua função. A função do meu despertador é esperar por mim. Esperar pelo momento em faço dele a primeira imagem que vejo ao abrir os olhos. E como um companheiro discreto ele aguarda pacientemente esse momento. Nunca vacila, nunca se altera, nunca desiste.
Ultimamente sou mais consciente da sua presença. Procuro-o mais vezes, várias vezes. Todas as noites. Mantemos um diálogo silencioso e persistente mas nunca seguido. É quase existencialista,um género de fatalidade cósmica que me impõe que olhe para ele que me certifique que continua por ali a dar horas à espera de todos os meus despertares.
2:20: Viro-me de lado e arrasto uma almofada até junto de mim. Envolvo-a, vigorosamente, no meu abraço e faço repousar nela a minha perna direita. O coração bate-me exaltado na coxa como se protestasse o movimento desnecessário que acabo de lhe impor. Gradualmente, porém, qual perdedor resignado volta a aconchegar-se na sua cavidade e faz ajustar a nossa respiração aos ritmos que habitam, de noite, as casas …uma mão percorre-me fleumática as costas. Não enxergo o corpo em que se encaixa, a cara a que pertence ou os olhos que decidem os seus movimentos. Nada dessas coisas porém, parece importar. Apenas a reconfortante familiaridade desse toque importa. Na verdade, é tudo quanto basta porque é tudo o que sempre existiu. 3:17: Lá fora milhares de gotas de chuva suicidam-se dos algerozes dos prédios. O som que provocam ao embater nos obstáculos que encontram no caminho dá-lhes um ritmo próprio, quase aritmético... a fanfarra dos bombeiros de Xabregas passa pela rua principal da feira. Estou com um grupo de pessoas demasiado familiares para não terem rosto. Há ainda um cão retriever e a minha professora de inglês do 6.º ano come um churro que tem a forma de uma fartura. Observo-a distender o seu dedo indicador e enfiá-lo no mar de chocolate que brota do interior da fartura. Faz isto várias vezes até não haver nada a não ser fartura. A sua boca e mãos estão totalmente lambuzadas de chocolate. Nessa altura, chama o cão e dá-lhe a fartura para que acabe com ela. O contentamento do canino é exteriorizado pelo abanar vigoroso da sua cauda que bate repetidamente de encontro à cabeça do baterista dos Meatloaf, que se encontra afixada no placard informativo que anuncia o próximo concerto da banda. O barulho provocado pela cauda do cão é ensurdecedor.04:49: A tempestade insiste em impor-se lá fora. Volto a fechar os olhos e tento dormir, afinal só me restam duas horas até que o mundo deixe de ser lasso novamente. O vizinho de baixo já me habituou às suas incursões nocturnas à casa de banho e o barulho interminável da sua urina quente a cair na água da retrete põe-me sempre a pensar que a bexiga dele é demasiado elástica para ser humana. A verdade, porém, é que a constância daquele jorrar é aconchegante… Um malabarista enche com um jarro vários copos com água que se encontram simetricamente espalhados em cima de uma mesa. Estou na rua Augusta com um amigo que desfila a cara de outro. Estamos de braço dado, de pé, e observamos o malabarista com moderada curiosidade. O jarro ainda contém água e os copos ainda não estão cheios mas isso não importa porque a nossa atenção acaba de se virar para as três pessoas ao nosso lado que comem pernas de frango. Comem-nas à mão e de uma forma tão sôfrega que os seus queixos exibem o aspecto daqueles que aplicam gloss de forma desmazelada. O meu amigo faz anunciar a sua vontade de comer frango e corre para o cesto dos três expectadores que neste momento não passam de bons velhos amigos, confortáveis e familiares, cujas caras pertencem a estranhos. Todos roem ossos e mascam as cartilagens, sem preocupação aparente pela estética social. 7:55: Começo a ouvir a cidade acordar, oiço o barulho de persianas que se abrem, o som fumarento dos velhos autocarros, do bater de pratos nos cafés da minha rua, das portas traseiras da carrinha do padeiro quando fecham. O mundo voltou a ser apenas um e tudo o que me resta são cinco minutos. Cinco minutos para sair da cama. Cinco minutos para fazer tudo de novo. Cinco minutos para me convencer que cinco minutos são uma eternidade. Hoje parti o meu despertador.
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