quarta-feira, 1 de maio de 2013

Das dores e dos desígnios do Grande Arquitecto do Universo

É impressionante como nunca nos lembramos do corpo até que o sentimos.

Na maior parte dos casos, a rotina é feita sem a mínima consideração pela máquina que transporta o nosso cérebro.

E ainda bem, porque, a não ser assim, estaríamos condenados a transformar-nos naquelas pessoas que ninguém ousa ser amiga na escola. Esses andam sempre aprumadinhos e já lhes dói tudo muito antes duma pessoa lhes acertar o primeiro sopapo.

Não é desses que vos quero falar. Quero falar-vos daquele tipo de pessoas que tratam o corpo com a indiferença que o Zorro nutre pela letra X.

Aquelas pessoas que, com a dose certa de persuasão, conseguimos convencer a jogar paintball em tronco nu, snifar cola UHU, experimentar-lhes no lombo a consistência de uma vardasca dos cavalos, descer uma estrada de gravilha de olhos vendados em cima de uma bicicleta sem travões, enfim toda uma panóplia de actividades cujo grau de diversão não é aparente aos olhos de todos. 

O que esses pobres de espírito não sabem é que o Grande-Arquitecto-do-Universo (é assim que eu lhe chamo nestes dias) dotou o nosso corpo de um mecanismo de auto-defesa, preparado para ser accionado quando o cérebro humano não garante de forma adequada os cuidados minímos da subsistência. (o António Variações já escreveu sobre essa temática vide "quando a cabeça não tem juízo". Saudades tuas António).

Uma vez accionado o mecanismo as alterações operadas no nosso estilo de vida são nefastas. 

O corpo passa de Servo a Capacho mais rapidamente do que uma pessoa consegue dizer: "A-sério-que-se-molhares-a-mão-em-alcóol-e-pegares-fogo-não-te-queimas-porque-o-fogo-consome-o-alcóol?".

Esse dia, traça o ponto de não retorno. As dores instalam-se, confortáveis, em todas as partes do corpo comportando-se como visitas indesejadas que vivem num lugar distante em que, para se chegar, temos que apanhar vários meios de transporte, incluíndo uma carroça puxada por uma mula.

Escrevo-vos da pior prisão para onde pode ser mandado o ser humano: a Prisão das Limitações Físicas.

(nota do autor: a partir daqui ler com o tom grave que imputam os estadistas aos discursos dirigidos à nação).

É com pesar que reconheço, hoje, que o meu mecanismo foi accionado.

Sinto-me um cérebro de 20 encarcerado num corpo de 30, situação que considero perfeitamente injusta já que nunca joguei paintball em troco nu.

Não querendo levantar falsas acusações, parece-me, no entanto, que o mecanismo do António Variações era bem mais tolerante...

Quero deixar os meus mais solidários cumprimentos a todos os prisioneiros das limitações físicas. E o voto de que alcancemos a longevidade necessária para chegarmos a Sócios Premium do Inatel.

A todos aqueles de mecanismo inerte só posso deixar uma mensagem:

Não snifem cola UHU, pois os efeitos psicotrópicos que lhe são atribuídos não passam de meras patranhas, plantadas na nossa sociedade, pelo lobbie das Indústrias das Colas Escolares. 





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