segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Hoje

Comecei por lavar os dentes respeitando o movimento orbital dos planetas.

A moção circular e isócrona transportou-me para a estratosfera. Senti o calor avassalador de um cometa que passava perto, indiferente à minha presença.

Enquanto seguia distraidamente a sua rota, imaginei o estado de espírito dos habitantes de Nova Iorque, quando o vissem embater no Empire State. Seria tão diferente daquele que sentia agora. De repente, o King Kong parecia-me um símio amistoso…

Um decidido toque no ombro trouxe-me de volta à estratosfera.

Era o Super-Homem.

Trazia, pelo braço, a Lois Lane. Não os via desde os anos 90 e fui cumprimentada por duas sombras disformes das personalidades, outrora esplendorosas, que tinham preenchido, durante tanto tempo, o meu imaginário.

A Lois ostentava um porte mais roliço e trazia consigo uma cesta cheia salgados, que ia comendo, enquanto falava desenfreadamente. Segundo ela, ir para o espaço e não levar folhados de salsicha é o mesmo que ir à praia e não levar ovos cozidos.

Tive vontade de rir, porque nessa altura o Super-Homem tentava libertar o braço ao qual se segurava Lois. Mas ela nem percebeu e continuou na sua ladainha sobre o que devia comer-se e onde.

Para pôr fim à conversa à torrente verbal de Lois, comentei a beleza natural de Júpiter e percebi o olhar agradecido de Clark.

Passei a boca por água e preparei-me para enfrentar a segunda-feira.

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