Cheira sempre a fim de tarde soalheiro misturado com rosas que nunca murcham.
Por
detrás da ingenuidade aparente com que soluciona os nossos problemas,
encontra-se a manha de um prestidigitador experiente. É como uma
engrenagem invisível que dá impulso às nossas vidas.
Veste o meu pai, e reserva no coração três caixas de ouro.
A da minha irmã mais velha tem um compartimento especial, com uma chave feita por medida. A medida de todos nós.
Enquanto joga cartas no computador, dá solução às nossas frustrações.
Ás
de copas para dois de copas… que saudades tenho da minha Ana… três de
paus para quatro de paus… esta semana aproveito que vou a Lisboa e
compro as cortinas lá para a casa da Migustinha… sete de ouros…
aproveito também para almoçar com a minha Rosa que anda sempre mal
nutrida… sete de ouros… era bom que o Vítor viesse comigo… sete de ouros
para oito de copas… assim jantávamos todos e estávamos um bocadinho com
o Joaquim…
Mas nem tudo são rosas.
Quando
se zanga consegue fazer-nos viajar no tempo. Regra geral, sentimos na
pele o estado de espírito de Pedro Álvares Cabral ao dobrar o cabo das
tormentas. Mas de vez em quando, sentimos o pavor dos chineses perante a
natureza destrutiva de Godzilla.
Nessas alturas,
unimos esforços na tentativa de repor a normalidade. Sentamo-la no sofá
dela, proibimos o pai de fazer zapping, pomos os cães fora de casa,
preparamos o almoço, arrumamos a cozinha, vamos às bombas comprar o
stock de crunchies, e uma de nós oferece-se para lhe pintar as unhas dos
pés…
Depois esperamos, ansiosos que ela volte a ser um fim de tarde soalheiro misturado com rosas que nunca murcham.

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