14 de Fevereiro, 19:30 horas, casa de Campo de Ourique.
Ana e Jaime estão no quarto.Preparam-se para ir jantar fora e comemorar o Dia de S. Valentim. Ana remexe uma gaveta à procura da camisola azul-marinho que tinha reservado especialmente para a ocasião. Jaime calcorreia a divisão, impaciente, à espera que Ana se despache.
Jaime: Querida já estás vestida?
De costas voltadas para Jaime, Ana interrompe a sua busca e, cerrando os olhos, suspira profundamente. Jaime olha para o relógio mais uma vez. Derrotado, atira-se para cima da cama, e liga a televisão. Ana continua, frenética a revolver o closet enquanto vai falando sozinha.
Ana: Mas onde é que aquela mulher enfiou a minha camisola? Seria de pensar que uma ordem simples como Passe-me-a-camisola-e-arrume-a-no-sítio-das-camisolas-fininhas seria fácil de executar… mas não! É demasiado complicado para aquela cabeça de vento. Juro - eu juuuroooo!! - que qualquer dia a ponho a andar. Caramba, 10 anos a trabalhar cá em casa e não consegue fazer uma coisa bem feita!! Qual é a dificuldade de passar uma camisola e arrumá-la no sítio!?!!
Jaime: Vá lá querida! Tens mesmo que levar essa camisola? O que é que importa? Para mim ficas bem de qualquer maneira… se não tivesses opção…Mas ainda a semana passada passaste a tarde toda nas compras com a Sofia…
Ana: Jaime, sabes perfeitamente que a Sofia e eu fomos comprar roupa para o casamento da Matilde e do Diogo.. não comprei nada para mim…
Jaime olha para Ana perplexo.
Jaime: ?!? mas o meu cartão desmagnetizou com tantas vezes que foi passado..
Ana: Jaime…
Jaime: Ok, ok! Vou lá a baixo fazer uma sandwich, queres uma?
Ana: A sério Jaime!? Parece-te que quero uma sandwich?? Olha bem para mim meu menino! A minha cara é a de uma pessoa a quem lhe apetece uma sandwich??? Arghhhh, desaparece daqui e deixa-me sossegada!!
20:15, Jaime sob as escadas com uma sandwich na mão. Ana está dentro do closet em cima de um escadote a revolver arrumos de roupa. De boca cheia, Jaime solta um:
Jaime: Então querida já estás vestida?
Ana desce o escadote cheia de uma calma indiciadora de raiva latente. Lentamente vira-se do escadote para Jaime.
Ana: Não querido! Não estou vestida! Facto que, de resto, tu terias percebido se tivesses - e agora estou só a atirar para o ar! - olhado para mim antes de começar a perguntar essas la palissadas que tanto gostas!!!
Jaime volta-se para enfrentar Ana enquanto continua a ruminar a sandwich.
Jaime: Mas já aqui estás há uma hora Ana. De quanto tempo mais é que precisas?
Ana: Olha Jaime, já que me fizeste descer do escadote, vou perder o meu tempo contigo. Começo por dar-te dar um exemplo. - Sim, porque vocês homens só percebem quando falamos com exemplos e desenhos ou gráficos!! - Eu, Ana, olho para ti e percebo, pelas calças e a camisa que decidiste vestir, que tu também não estás vestido… a partir daí todo um cruzamento de informações se processa no meu cérebro. Olho para a camisa e percebo que só um cego autista é que poderia achar que uma camisa caqui ficava bem com umas calças amarelas mostarda. Então o meu cérebro comunica-me que a pergunta que eu tenho que te fazer não é : Estás vestido? Porque ele já reconheceu que estás vestido, só não reconhece a estética inerente… Percebes isto?? Quando eu decido verbalizar o que quer que seja, o meu cérebro já me deu todas as informações que eu necessito para dizer exactamente aquilo que tem que ser dito. E a única pergunta que me vem neste momento à cabeça é: Onde é que tu pensas que vais assim vestido? Isso e: A sério que achaste que alho era o molho para pôr na sandwich no dia de S. Valentim?
Jaime: Mandamos vir indiano?
Ana: …
gosto disto
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