sexta-feira, 21 de março de 2014

A essência do Alentejano

"Está um tempo cabanero"

É expressão que só oiço no seio da minha famíia. 

Significa que está tempo de se estar por casa. Na companhia dos livros e de bebidas quentes e fumegantes. 

Suponho que seja uma palavra Alentejana, mas cá para mim é uma palavra de família. 
(Tal e qual como a expressão "cá para mim"... consigo ouvir a minha mãe e os meus tios a dizerem-na enquanto escrevo).

Se este texto fosse lido por um não-Alentejano, alto e bom som, tudo o que íamos ouvir na frase de abertura seria; "Está um tempo cabaneiro".

Pois, tá mal!!! 

Esta palavra lê-se sem "i" e com acento circunflexo no "e" (ainda que não se ponha lá o dito acento).

Portanto, àqueles a quem os cérebros lhes impõem o "i", ficam a saber que desvirtuam a palavra, retirando-lhe a essência. 

E no processo, traumatizam o Alentejano que a ouvir. Ou vários, conforme a audiência. 

Porque dizer-se que "está um tempo cabaneiro" é exactamente o mesmo que chamar "caseiro" ao casal encarregue de cuidar do monte. 

E atentem como escolhi dizer "monte" e não "quinta" ou "herdade no alentejo". 

Não é casual. É o que permite distinguir as raízes da propriedade, ou a família do dinheiro. 

Aqueles que têm montes chamam aos "caseiros" Tóno Manel e Maria. A expressão "caseiros" é apanágio dos proprietários com dinheiro. Das gentes desapegadas da terra. 

Também o caminho para o monte, não é uma "estrada de terra batida". 

No Alentejo chamamos-lhes "estrada de campo". 

E ao contrário daquilo que estão a pensar, a expressão não signifca "estrada que não foi sujeita a macadamização". 

Significa antes, "estrada que serve para nos lixar os carros todos, especialmente em anos de inverno rigorosos!". 

E a expressão "carros", neste contexto, deve ser entendida como englobando, exclusivamente, pick-up's e jeeps,

Ver um Alentejano a conduzir numa estrada de campo, é imaginar um citadino a conduzir o seu Ferraris numa "estradas de terra batida" toda esburacada. 

O fundamento por detrás desta bizarria, assenta no facto dos carros serem instrumentos de trabalho e não automóveis Todo-o-Terreno, como costumam ser encarados pelas pessoas da cidade. 

E ai daquele que ouse engatar uma mudança acima da 3.ª. Aí, o choque é total e vem seguido da expressão "Atão o mê amigo nã é de cá, pô não?"

Assim, respeitem-se os regionalismos, as tradições e o tempo cabanero. (sem "i") 

Hoje fico por casa, com uma bebida fumegante e um livro. 

Boa noite!

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