"Está um tempo cabanero"
É expressão que só oiço no seio da minha famíia.
Significa que está tempo de se estar por casa. Na companhia dos livros e de bebidas quentes e fumegantes.
Suponho que seja uma palavra Alentejana, mas cá para mim é uma palavra de família.
(Tal e qual como a expressão "cá para mim"... consigo ouvir a minha mãe e os meus tios a dizerem-na enquanto escrevo).
Se este texto fosse lido por um não-Alentejano, alto e bom som, tudo o que íamos ouvir na frase de abertura seria; "Está um tempo cabaneiro".
Pois, tá mal!!!
Esta palavra lê-se sem "i" e com acento circunflexo no "e" (ainda que não se ponha lá o dito acento).
Portanto, àqueles a quem os cérebros lhes impõem o "i", ficam a saber que desvirtuam a palavra, retirando-lhe a essência.
E no processo, traumatizam o Alentejano que a ouvir. Ou vários, conforme a audiência.
Porque dizer-se que "está um tempo cabaneiro" é exactamente o mesmo que chamar "caseiro" ao casal encarregue de cuidar do monte.
E atentem como escolhi dizer "monte" e não "quinta" ou "herdade no alentejo".
Não é casual. É o que permite distinguir as raízes da propriedade, ou a família do dinheiro.
Aqueles que têm montes chamam aos "caseiros" Tóno Manel e Maria. A expressão "caseiros" é apanágio dos proprietários com dinheiro. Das gentes desapegadas da terra.
Também o caminho para o monte, não é uma "estrada de terra batida".
No Alentejo chamamos-lhes "estrada de campo".
E ao contrário daquilo que estão a pensar, a expressão não signifca "estrada que não foi sujeita a macadamização".
Significa antes, "estrada que serve para nos lixar os carros todos, especialmente em anos de inverno rigorosos!".
E a expressão "carros", neste contexto, deve ser entendida como englobando, exclusivamente, pick-up's e jeeps,
Ver um Alentejano a conduzir numa estrada de campo, é imaginar um citadino a conduzir o seu Ferraris numa "estradas de terra batida" toda esburacada.
O fundamento por detrás desta bizarria, assenta no facto dos carros serem instrumentos de trabalho e não automóveis Todo-o-Terreno, como costumam ser encarados pelas pessoas da cidade.
E ai daquele que ouse engatar uma mudança acima da 3.ª. Aí, o choque é total e vem seguido da expressão "Atão o mê amigo nã é de cá, pô não?"
Assim, respeitem-se os regionalismos, as tradições e o tempo cabanero. (sem "i")
Hoje fico por casa, com uma bebida fumegante e um livro.
Boa noite!
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