Duma caneta não sai só poesia
Quando era pequena contavam-se muitas histórias dos tempos da
revolução.
Dizia-se que, nessa altura, várias pessoas ditas “fascistas”, atravessavam
a fronteira para terras de “nuestros hermanos” numa tentativa derradeira de salvarem
os bens que tinham escapado às apreensões que ocorreram no país logo após o
sucesso da revolução.
Numa delas, conta-se que um importante financeiro da nossa praça, ao
passar a fronteira foi imediatamente rodeado por “guardas alfandegários” – ponho
entre aspas porque nesses tempos, democraticamente idos e loucos, qualquer um
podia desempenhar qualquer função, bastando, para tal, estar imbuído do
espírito “living la vida loca”.
O magnata, a quem chamaremos João Trouillard por facilidade de narrativa,
foi então sujeito a uma exaustiva revista (cujos pormenores são desconhecidos
da autora) com o intuito de obviar a “sonegação ao país, de bens que de outro
modo pertenceriam aos que nada tinham..” (apud camarada anónimo).
Trouillard, encontrava-se agora, pelo menos assim supunham os
pacifistas do cravo, do outro lado da barricada.
No entanto, nessa tarde, tudo o que os emergentes guardas alfandegários
conseguiram apreender resumiu-se a uma gravata de seda italiana e uma carteira
de coro sem um único tostão no seu interior, tal apreensão justificada mais
pela necessidade da demonstração de resultados do que propriamente pelo valor
comercial dos objectos apreendidos.
Trouillard, trazia, ainda, na algibeira interior do seu blazer uma
caneta Bic que se salvou à apreensão por a tampa se encontrar roída. (Assim se
vê como o flagelo de roer a tampa de uma caneta bic afecta até as classes mais
altas da população).
Finda a revista lá deixaram seguir o homem que, ajeitando os colarinhos
da camisa, agora desprovida de gravata, ergueu na direcção deles a caneta bic e
do alto da sua pompa e arrogância aventou: “Os senhores podem revistar-me e
tentar tirar-me tudo quanto quiserem mas enquanto eu tiver na posse de uma
destas, não há portas que se me fechem”.
Sempre que ouvi contar esta história, em pequena, achava que era porque
o Senhor Trouillard além de ser rico também possuía dotes literários que
tencionava pôr em prática acaso os rumores do pós-revolução, relativos à
extinção permanente da propriedade privada, se viessem a verificar.
Mais tarde à medida que fui crescendo percebi que Trouillard se referia
à sua capacidade de apor a sua assinatura, em qualquer formulário adequado para
o efeito, obtendo assim crédito em qualquer parte do mundo onde a dita propriedade
privada continuasse a medrar.
No meu caso, temo que a conjugação de uma caneta com a minha pessoa não
tenha o “toque de Midas” de que falava o magnata. Ultimamente, nos dias que
correm, sou até da opinião que o melhor será não colocar a minha assinatura em
qualquer documento minimamente oficial porquanto, a mesma, só terá o efeito de
me tornar mais pobre.
No entanto, meus amigos, não me
deixo abalar por tamanhas trivialidades como a minha assinatura. Pelo
contrário, apazigua-me saber que me podem arrebatar tudo, excepto as coisas que
trago na minha memória.
E, para essas, tal como o Senhor Trouillard basta-me uma caneta Bic, de
tampa roída.
Sem comentários:
Enviar um comentário