“Exmo. Senhor,
Solicito a entrega, ao quadrúpede da raça canina que se encontra diante de si, dos seguintes produtos:
a) 8 Salsichas frescas;
b) 1kg de carne picada;
c) 500gr de entrecosto;
Agradeço a amabilidade na inclusão dos produtos dentro do talego que o animal carrega na boca. Poderá encontrar aí também o dinheiro para provisionar a despesa.
Muito agradecido.
Ass: P”
Visto que era fim do dia, e que o talho estava prestes a fechar, o talhante intrigado e movido pela curiosidade decide seguir o animal.
Ao sair da loja, o cão dirige-se a uma paragem de autocarros ali próxima e põe-se à espera.
Passa um autocarro, o cão encaminha-se à porta de passageiros, espreita lá para dentro e volta para trás. Repete esta atitude por mais 3 vezes, até que se decide a entrar no 4.º autocarro.
O talhante, mais perplexo do que nunca, entra atrás do cão e senta-se num banco próximo do animal, que se encontra cerca da porta de saída com o talego pousado aos seus pés.
Na última paragem, o canino sai do autocarro com os últimos passageiros, e dirige-se a uma casa antiga com uma porta de madeira oval.
Com o focinho faz balançar a aldraba e aguarda. Um homem, dos seus sessenta anos, abre a porta ao animal e logo depois de lhe retirar o talego da boca, dá-lhe uma valente sova.
O talhante, incrédulo com tal desfecho, irrompe da escuridão e aborda o homem:
O senhor desculpe a intromissão, mas não posso deixar de perguntar. Segui o seu cão até aqui, e estou impressionado com os ensinamentos que lhe incutiu. Convenhamos que não é todos os dias que vemos um cão a fazer recados! Compreenderá V. Exa. a minha estupefacção quando, no fim de tudo isto, o vejo a aplicar um correctivo no animal…
O homem apanhado de surpresa, olha para o cão, como que a tentar reconhecer a que se referia o talhante e responde:
Está a falar deste paspalho? “Isto” não serve para nada! Não passa de um preguiçoso-lambão. Acha, o senhor, normal que esta semana já é a segunda vez que se esquece da chave!?!?
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