“Nós” não vamos correr para merecer o batido de morango que nos espera no fim dos 15km. Porque não há “nós”! Há: “Tu” vais correr! E há: “Eu” vou a andar a passo de humano lento!
Não quero ser o teu centro gravitacional de corrida. Porque é que insistes em trazer-me se nem sequer podes correr em linha recta? Correr em círculos não é uma modalidade! E pára de me olhar com esse ar de paciência e tolerância enquanto esperas retome o ritmo! Isso só me dá vontade de estugar ainda mais o passo, de me sentar na relva, de ignorar-te.
Ainda me irrita mais saber que o posso fazer.
Posso sentar-me na relva, posso baixar a cabeça e posso ignorar-te. Porque sei que não vais a lado nenhum. Nunca irás. Sei que vais continuar a correr em círculos. Jamais em linha recta.
Experimento o toque dos teus dedos zombeteiros nas laterais do meu abdómen. Nessa altura, a irritação alimenta a energia que preciso para largar em debandada atrás de ti. Corro de raiva. Tento assentar-te uma bofetada e, logo, um pontapé. Mas só chego a tempo de agredir o ar.
Tu já lá vais a rir. Fazes estimativas às calorias que gastei com o ímpeto descontrolado. Dizes-me que preciso de dar mais 700 iguais a essa, mas que talvez seja melhor evitar prender a respiração.
Céus, porque me martirizas? E porque é que continuas a trazer-me?
Hoje pensei nisso.
É quem tu és.
Traçaste
um percurso e incluíste-me nele. E dispões-te a correr em círculos e
não em linha recta. Quem anda em linha recta sou eu. O teu movimento
circular só avança em função do meu impulso rectílineo.
Repara,
eu nunca vou conseguir acompanhar-te, porque não está em mim correr.
Mas nunca vou deixar de me equipar, levantar a cabeça e seguir o
percurso à volta do qual tu te dispuseste a circular.
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